Sobre Fotografias e Imagens

Poucas coisas criadas pelo homem com o objetivo de nos mostrar o real podem ser mais enganosas e mentirosas do que a fotografia. Nada pode esconder mais o interior, a verdade das coisas e das pessoas do que uma foto. O surrado e sábio ditado oriental “uma imagem vale mais que mil palavras” não deixa de ser uma verdade, mas que precisa ser escorado em palavras. Os velhos retratos 3X4 e 5X4 que habitam nossos RG’s e passaportes nos identificam perante o estado, mas nada dizem sobre nós.

Desde que a fotografia foi consolidada, na segunda metade do século XIX, e passou a retratar – o retrato – a natureza, pessoas e objetos, substituindo os pintores profissionais (os retratistas), veio a ser vista, por alguns, como uma nova forma de arte. De uma engenhoca manobrada por um profissional, acompanhada de “um pau de fogo” que explodia, depois passando por um lento e complexo processo de revelação até virar imagem, a fotografia chegou hoje a uma simplicidade inimaginável, quando smartfones criam fotos em frações de segundos.

Nunca se fotografou tanto nem se divulgou mais imagens do que agora. A quantidade de recursos para se manipular fotos são enormes, e qualquer criança é capaz de fazê-lo, além de postá-las em tempo real para qualquer lugar do mundo. Não há mais nada a ser fotografado: do interior do corpo humano ao interior do sol, das galáxias mais distantes ao fundo do mar, da face humana aos animais, de paisagens belíssimas a acidentes e tragédias e tudo o mais. As fotografias continuam nos maravilhando e nos ajudando a ver o mundo e a desvendá-lo.

No entanto, essa “arte” tão impactante é capaz de esconder a realidade. Isso sem levar em conta que o resultado pode ser alterado e modificado de acordo com a vontade e imaginação do autor. Não estou falando de falsificação deliberada, mas da impossibilidade que a fotografia tem de revelar – embora sua proposição seja exatamente essa – nosso estado emocional, por exemplo. O nosso interior. De como ela pode nos fascinar tanto e esconder a realidade. Digo que uma fotografia é incapaz de mostrar nosso fingimento, de captar a nossa alma.

Quando a fotografia evoluiu para os filmes, achava-se que o cinema iria engolir todas as outras artes porque música, literatura, pintura, escultura, arquitetura e dança estavam  contidas nela. Nada mais enganoso. O cinema tornou-se a sétima arte. A fotografia não. Nenhum retrato fotográfico foi capaz de superar a Monalisa, de Leonardo Vinci, as virgens de Rafael ou os autorretratos de Rembrandt.

Durante o século XIX, o francês William Bouguereau foi considerado o maior de todos os pintores, por sua incrível capacidade de pintar retratos, reproduzir seres humanos – quase sempre mulheres. Com a ascensão da fotografia, Bouguereau, simplesmente sumiu, foi esquecido. “O mundo não precisava mais que o real fosse pintado, a fotografia cuidará disso”. Resultado, a pintura foi engolida pelo cubismo e o dadaísmo que destruíram as artes plásticas, e o bizarro virou arte. Tudo ficou relativo. Pablo Picasso deu o tom, e pintura e escultura se perderam de forma irrecuperável. No início do século XX era moda destruir tudo, inclusive o mundo – vide Primeira Guerra Mundial – James Joyce tentou destruir a linguagem, com seu romance Ulisses, mas não conseguiu. A língua tem uma estrutura. As Artes plásticas não

A fotografia é prova que nada pode substituir a palavra escrita, a literatura, quando se quer descrever o mundo e seus objetos. Quando se quer apenas mostrar as coisas, que se apresente imagens. Mas dizer o que as coisas são, ‘in totum’, é preciso escrever sobre elas. Imagens e fotografias não bastam. Uma foto de uma “linda e elegante família” sorrindo não diz muito sobre ela. Não passa disso: uma foto. Não conta sua história. Assim acontece o mesmo com fotos de lugares paradisíacos, de cidades, que seus moradores postam como “mais bela cidade do mundo”. Até Bagdá e Beirute bombardeadas se tornam belas em fotografias.

Shakespeare falou muito sobre o eterno conflito entre realidade e aparência. Quando Iago diz, em Othelo, “Eu não sou o que sou”, Othelo diz, depois de ser enganado, que “Os homens deveriam ser o que parecem”. Em Macbeth, o rei Duncan, da Escócia diz “Não existe arte que possa decifrar o que se esconde atrás da máscara da face”.

Mais do que nunca vivemos uma era de aparências, em que as imagens superam as palavras. E só nós mesmos sabemos o que escondem as fotografias de nossos rostos sorridentes atrás de um óculos Ray-Ban!

Sobre Elegância

Quando seu filho Laertes – a cena ocorre em Hamlet – vai viajar para a França, Polônio lhe dá conselhos de como deve se comportar um jovem e sensato cavalheiro: “Pensa antes de falar e pensa antes de agir. Sê familiar, mas nunca vulgar. Os amigos verdadeiros ponha-os à prova, e sujeita-os à tua alma com arcos de aço, mas não calejes a palma de tua mão com apertos a todo sujeito mal saído da casca do ovo. Dá o ouvido a todos, a voz, a poucos. Que tua roupa seja tão custosa quanto teu bolso permitir, mas sem afetação. Elegante, mas não extravagante”.

Sábios preceitos! Talvez, se fossem seguidos por parte da humanidade, teríamos indivíduos bem menos grosseiros dos que estamos acostumados a conviver no dia a dia. Porque a impressão que temos, às vezes, é de que estamos convivendo com pessoas que são como pintinhos “Mal saídos da casca do ovo”. Não há quem não concorde que discrição, moderação, elegância no trato, cortesia, cavalheirismo são coisas do passado, que se perderam em algum momento da história – não sei se nos loucos anos sessenta, injustamente festejados como a era da liberdade. Que só encontramos moderação, sobriedade e distinção em raríssimas ocasiões, em eventos de caráter oficial, solenidades, audiências, geralmente no poder judiciário, na presença de ministros de tribunais superiores, na diplomacia, ou na presença de autoridades do primeiro escalão, e mesmo assim por imposição do cerimonial, e não por hábito ou costume.

Estamos sempre nos deparando com ambientes, sem exagero, em que impera a selvageria no trato pessoal. É como se todos se comportassem como se estivesse num imenso bar em meio a algazarra, e ninguém se dá conta do que está fazendo. As pessoas não se levantam para dar a cadeira a alguém mais velho ou a uma senhora; ficar de costas para o outro é fato corriqueiro. Essas grosserias não são privilégio dos homens,  invocando igualdade  de direitos, as mulheres estão se comportando do mesmo jeito.

A apresentação pessoal, o “introduce my self” dos americanos, o brasileiro desconhece. As pessoas não são apresentadas adequadamente, simplesmente declina-se o nome de forma totalmente displicente. Os cumprimentos bom-dia, boa-tarde, como vai, tudo bem, por favor, obrigado, pouquíssimos utilizam. É como se esses gestos de respeito e cortesia compusessem uma etiqueta ultrapassada.

Sei que o controle remoto dispensa o uso de chaves para destravar a porta dos automóveis, mas nem por isso os homens precisavam abandonar o belíssimo gesto de abri-las para as mulheres. Tenho certeza de que a mais empedernida das feministas adora esse gesto. Mas poucos homens o fazem nos dias de hoje. O simples click do controle remoto é o suficiente para transformá-lo em um cavalheiro.

A falta de elegância se estende ao não retorno de telefonemas, mensagens via smartphone ou e-mails, denotando um egoísmo que assusta o sujeito mais “blasé”. A falta de cumprimento de acordos, tratos, encontros marcados, o chamado “furo” é  banal. Chegar atrasado vinte, quarenta minutos, uma hora já está incorporado ao cotidiano, e nesse quesito os brasileiros são campeões.

Sabemos que costumes e hábitos no trato entre as pessoas variam muito de país para país. Cada um tem peculiaridades que chegam até ser incompreensíveis. Sabemos que anglo-saxões: americanos, britânicos, australianos não gostam que peguem neles, que deem tapinha nas costas. Para eles, isso é coisa dos povos latinos: italianos, portugueses, brasileiros.  Portugueses batem a porta na cara das pessoas, italianos esbravejam muito, homens russos se beijam na boca ao se cumprimentarem, neozelandeses encostam o nariz no do outro, esquimós oferecem a mulher para dormir com o hóspede e por aí vai.

No quesito elegância, estamos longe dos orientais, em especial os silenciosos japoneses, que são um exemplo quando se trata de cortesia e polidez. O gesto de curvar o corpo para cumprimentar as pessoas é um dos mais belos entre os povos do mundo. Nenhum gesto revela mais apreço e distinção do que esse. Os árabes têm o seu Salamaleque. Nós, brasileiros, temos um aspecto muito positivo, que é o de estarmos sempre aparentemente alegres, mas é só.

Assim, o chamado “gentleman”, cavalheiro é sujeito inexistente na oração e na ação. Todo esse comportamento indesejável parece ser fruto de orgulho, soberba, arrogância, mas não é. É falta de educação mesmo. É fruto de uma sociedade apressada e egoísta, que está se relacionando de forma virtual e não sabe mais interagir. Assim, estamos nos tornando uma sociedade de grosseirões. E isso é muito ruim!

Sobre Gênios e Fraudes

Aqueles que atribuem o conceito de gênio a determinados escritores, compositores, pensadores, enfim criadores de nosso tempo, achando que suas obras são fruto de sua inteira criação, agem assim porque desconhecem o passado e não sabem que são os clássicos os fiéis depositários das criações desses “iluminados” que, na verdade, não passam de tradutores dos titãs do passado. Quando Caetano Veloso diz que “de perto ninguém é normal” e todos o apontam como um “gênio da raça” por ter dito essa “sacada” brilhante, não sabem que o cantor baiano está apenas ecoando a sabedoria dos gregos – que disseram isso há mais de dois milênios – que ele lê em silêncio, e não diz pra ninguém, para que todos pensem que seu gênio é maior do que realmente é.

Quando vejo a quantidade de “sábios” que nos rodeiam, sendo citados nas redes sociais, dando conselhos, com frases de autoajuda, poeminhas que consolam, mensagens de fé e esperança, entre aspas,  e uma foto ao lado, do suposto autor, seja um padre, cantor de rock, filósofo,  jornalista, não sei se rio ou se choro, diante da ignorância daqueles que replicam esses textos,  achando que se trata de algo original. Quase sempre essas citações  são plágio, falsificação, cópia, ou um arremedo, em que as palavras do texto original são substituídas por  sinônimos, inversão da sentença, supressão de termos, troca de palavras e outros embustes, usados como disfarce, para que não se identifique o verdadeiro autor.

Quando vejo Pedro Bial,  Pe. Fábio de Melo, Arnaldo Jabor, Rubem Alves – só para falar dos mais badalados nas redes sociais – sendo citados, com frases ou textos montados em cima de algo dito pelos monstros sagrados do passado, tenho arrepios, e dó daqueles que acreditam que eles realmente escreveram aquilo. Há também citações atribuídas a nomes que eu nunca ouvi falar, e que sequer existem, pois são criados pelos falsificadores do mundo virtual, com um objetivo que eu desconheço.

Outro embuste é atribuir a determinados vultos consagrados textos que eles nunca escreveram. Figuras como Gandhi, Dalai Lama, Martin Luther King, Madre Teresa de Calcutá, Clarice Lispector e meu mestre William Shakespeare, – são vários – são figurinhas carimbadas na Internet.  São muito poucos os textos, frases, pensamentos, poesias que atribuídos a esses gênios que foram escritos por eles. Difícil ficar calado diante dessas coisas que nos são enfiadas “goela baixo” e o tempo todo. Existe um texto  chamado “Você aprende” exaustivamente presente nas redes sociais e You Tube, atribuído a Shakespeare que já me foi enviado por várias pessoas que me perguntam se se trata de uma criação do bardo de Stratford.  Jogo-lhes um balde de água gelada no rosto, quando digo que não é. Muito embora, o texto seja bonito, e feito em cima das obras de Shakespeare, posso dizer que Shakespeare é muito melhor do que aquilo.

Essas coisas só acontecem porque as pessoas não leem mais. Tudo é pasteurizado, copiado e “colado” da Wikipédia – não nego a importância da Wikipédia – e outras enciclopédias e compêndios da Rede, por qualquer um que se ache no direito de escrever sobre qualquer assunto que lhe “der na telha”. Daí que somos cercados de mentiras metamorfoseadas de filosofia de primeira linha. Não estou dizendo que não existem coisas interessantes que podem ser consideradas originais. Mas são raríssimas.

Sei o quanto é difícil criar algo original, pois muito já foi dito nesses cinquenta séculos de civilização, mas o segredo da originalidade é saber criar, edificar em cima de bases já existentes. Mas não é o que estamos vendo agora. Daí que, gente sem qualquer cultura passa por sábio, brilhante, apenas porque roubou as criações dos antepassados.

Citei as redes sociais como depositárias dessas fraudes, mas no geral vivemos uma pobreza intelectual que dá medo. Tem uma arte que padece de fadiga e que precisa se reinventar urgentemente: o cinema. Um número exagerado de clichês se amontoa  transformando os filmes em algo previsível, já nas cenas iniciais. Quando surge algo interessante, é na maioria das vezes releitura.

Para concluir, aconselho a todos aqueles que prestigiam a verdade a verificarem antes a procedência daquilo que admiram. Uma forma bem simples é olhar se a citação é seguida do nome da obra, página, e outros detalhes. Estou dizendo isso apenas como denúncia. Sei que nada vai mudar, mas quero deixar registrado aqui meu protesto!

Um abraço!

 

O Imortal Shakespeare

O Imortal Shakespeare

“Shakespeare é o mestre de cerimônias da humanidade”. Esse é apenas mais um entre os milhares de elogios dirigidos ao dramaturgo inglês William Shakespeare, nascido em 23 de abril de 1564, em Stratford-Upon-Avon, uma pequena cidade a cento e sessenta km de Londres. Escolhi esse elogio por achar que ele condensa bem um dos atributos do bardo de Stratford: a capacidade que ele teve de mostrar com extrema acuidade o papel que todos nós seres humanos representamos nesse imenso palco que é o mundo. Com trinta e oito peças teatrais, quatro grandes poemas e os célebres 154 Sonetos; mais de mil e trezentos personagens; um vocabulário de mais de vinte e uma mil palavras (o maior entre todos os escritores) das quais mais de duas mil são de sua inteira criação, ele realmente apresentou o ser humano no que ele tem de mais belo e sublime, e também o que há de mais cruel e sórdido.

O pensamento de Shakespeare está disseminado entre nós, sem que mesmo saibamos. Seus dramas, suas sentenças, seus versos estão incorporados ao nosso cotidiano, e nós o citamos o tempo todo, até mesmo de forma inconsciente. O teatro, a televisão e o cinema, quando eles são mais inteligentes e criativos, repetem Shakespeare exaustivamente.  Atores e atrizes ao interpretarem o bem e o mal: sarcasmo, riso, choro, fraqueza, poder, força, dor, alegria, felicidade, desprezo estão sempre reproduzindo personagens de Shakespeare.  A poderosa presença do cinema entre nós é fortemente influenciada pelo teatro de Shakespeare, e a sétima arte se eleva quando se apodera de sua sabedoria. Não é por acaso que mais de seiscentos filmes já foram feitos tendo sua obra como pano de fundo.

Shakespeare lidava com o sublime porque ele amava o ser humano, fosse fraco ou forte, bom ou mal. Seu pensamento alarga, expande a mente humana, fazendo o homem  pensar mais, sentir mais, ver mais, por intermédio de suas tramas e seus personagens, que em vez de serem lidos, nos leem, elevando-nos a uma dimensão muito maior do que estamos acostumados. Ler Shakespeare é ser lido, é se ver.  Ele diz em Hamlet “o segredo da arte é oferecer um espelho a natureza”. E  ninguém mais do que ele ofereceu um espelho melhor para o homem se refletir. E para  tornar ainda mais forte esse mergulho interior, essa busca de interioridade,  ele se utilizou da mais sublime forma de arte, a  música, que ocupa um gigantesco papel em sua obra. Não existe Shakespeare sem música. São 121 canções em suas peças, e elas formam um conjunto com as tramas teatrais formando um todo complexo, fascinante, permitindo que sua mensagem penetre no mais íntimo de nosso ser.

Seus personagens são tão fortes, que muitos deles se confundem com o real, e até mesmo vão além do real. Sua história de amor, a maior de todos os tempos, entre dois adolescentes, Romeu e Julieta, confundiu-se com a realidade ao ponto de alterar a rotina da cidade de Verona, na Itália, que foi obrigada a construir casas e pontos turísticos em homenagem aos dois jovens, como se eles estivessem vivido ali, amado e morrido ali. Hoje a casa de Romeu e Julieta é um dos endereços mais visitados de todo mundo. Romeu e Julieta tornou-se o símbolo da relação indissolúvel e é a mais popular e bela história de amor de todos os tempos. E tão populares amados quanto eles são Hamlet, Falstaff, Othelo, Rosalinda e muitos outros personagens que continuam a povoar nossa imaginação.

Shakespeare é montado o tempo todo e em todos os lugares do mundo. Não há um único lugar do planeta que suas palavras não encontrem eco. Seja na África, Àsia, entre tribos indígenas, todos acham que ele tem alguma coisa a dizer-lhes.  No momento em que escrevo uma companhia teatral percorre o mundo, um total de 210 países – ou seja, todos  e mais alguma coisa –  montando Hamlet, com seu famoso  solilóquio “ser ou não ser: eis a questão”.

Encontrar Shakespeare é uma experiência maravilhosa e surpreendente, por sua capacidade de encantar do mais humilde serviçal a um poderoso estadista, e é lido, citado, estudado e admirado por artistas, filósofos, intelectuais de todos os matizes, seja à direita ou a esquerda, mais do que qualquer autor antes ou depois dele. Sua legião de admiradores passa por figuras tão díspares como Karl Marx e Sigmund Freud, Bismarck e Mendelsohn, Hegel e Nietzsche, Rudolph Von Ihering e Hector Berlioz, Samuel Johnson e Orson Welles, Machado de Assis e Nelson Mandela e muitos e muitos outros, que se encantam com sua incrível capacidade de surpreender-nos o tempo todo. Suas peças nos oferecem uma quantidade ilimitada de releituras, e nós podemos relê-lo sempre com a garantia de algo novo e surpreendente será encontrado.

Nosso maior homem de teatro, Nélson Rodrigues, que leu Shakespeare mais do que qualquer outro brasileiro, a exceção de Machado de Assis, cuja obra transpira o bardo por todos os poros, disse que “Toda unanimidade é burra”, e os brasileiros adoram ecoar essa frase. Eu diria que Shakespeare contradiz completamente a máxima de Nélson. Shakespeare, eu não sei como isso é possível, tem a capacidade de reinventar-se, e lê-lo ou vê-lo montado é uma fonte permanente de novas descobertas, transformando-o em um autor inquestionável e um clássico absolutamente necessário por tudo que tem a nos dizer.

Assim, quando ele diz que: “O mundo inteiro é um palco e todos nós somos atores”, Que “A vida é uma sombra que passa,  um pobre ator que aparece um instante no palco, e nunca mais se ouve falar dele, é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, nada significando”, “A teia de nosso vida é tecida ao mesmo tempo como o bem e o mal, nossas virtudes seriam orgulhosas se não fossem flageladas pelos nossos vícios, e nossos se não fossem compensados pelas nossas virtudes”. São sentenças como essas que elevam Shakespeare acima de todos os outros autores.

Agora em 2014 o mundo comemorou os 450 anos de seu nascimento, e 2016 será consagrado aos 400 anos de sua morte, se é que podemos dizer que morreu alguém que continua a encantar a humanidade e que está mais presente do que nunca. Shakespeare é eterno.

Vida longa a William Shakespeare, “O homem de Mil Almas”.

Franceses e Muçulmanos

“O mundo está torto e cabe a mim endireitá-lo”. Preciso dessa fala de Hamlet para poder suportar a estupidez do mundo, e esse pensamento de Shakespeare me consola. Mas, quando somos informados que apenas oitenta pessoas têm mais dinheiro que 3,4 bilhões de pessoas, metade da população mundial…

2014 se foi e 2015 começou “virado” no outro lado do mundo. Agora que a coisa parece ter esfriado um pouco – muito embora o clima do planeta continue esquentando – me arrisco a falar sobre a questão do atentado na França. Um fato grave, muito grave.

As companhias aéreas, principalmente as europeias, proíbem seus funcionários de ostentarem símbolos religiosos, crucifixos, medalhas ou qualquer adereço que identifique sua religião. A medida restritiva das empresas aéreas é evitar conflitos com seus clientes, principalmente mulçumanos. Parece até abuso que uma empresa britânica proíba um empregado de ostentar um crucifixo. Parece ser uma restrição a liberdade individual. No entanto, eu chamo isso de sensatez!

A França tem uma tradição de anticlericalismo e desprezo pela religião que antecede a Revolução Francesa. Embora aparentemente católica, a França é metade ateia, superando bastante a média de ateísmo na Europa, com possível exceção da Escandinávia. As Cruzadas foram guerras entre francos (franceses) cristãos e árabes islâmicos. Foi na França em 1572 que ocorreu uma das maiores matanças entre cristãos da História, a Noite de São Bartolomeu, quando o governo católico matou dezenas de milhares de protestantes. Durante a Revolução, os revolucionários saquearam o milenar santuário de Saint Dennis, destruindo e incendiando os túmulos dos reis franceses. Também mataram padres e freiras com se fossem baratas. Napoleão saqueou o Vaticano, mandou prender o papa e o humilhou, tomando a coroa de suas mãos e coroando a si mesmo.

Liberdade de expressão e liberdade religiosa é o nosso tema. Ninguém duvida que hoje os cidadãos da maioria dos países ocidentais desfrutem de ampla liberdade de expressão – claro que há manipulações e mentiras – e que a imprensa é livre constituindo-se em um dos pilares da democracia no ocidente.

A França tem a maior comunidade mulçumana da Europa. Suas antigas colônias na África: Argélia, Tunísia, Marrocos mandaram muitos imigrantes islâmicos para lá. Um dos maiores escritores “franceses” do século XX, Albert Camus é argelino. Em suas guerras com a Alemanha em 1870, 1914 e 1939 a França instituiu cidadania aos colonos pondo-os no parlamento francês. O objetivo foi aumentar sua população, que era metade da sua poderosa inimiga.

A liberdade de imprensa é fato na França. Todo jornalista pode dizer o que pensa. Inclusive os escrachados cartunistas do tabloide Charlie Hebdo, chacinados brutalmente por psicopatas islâmicos. Essa turma do Charlie Hebdo já há muito tempo  flertava com o perigo com seus cartoons ofensivos ao profeta. A França é cheia de jovens islâmicos desempregados e sem perspectiva: um convite ao crime. Pergunto? Por que “cutucar onça com vara curta”? Por que provocar a ira de fundamentalistas? Em nome da liberdade de expressão? Um direito que a França nunca lhes negou? O deboche custou caro. E inocentes perderam suas vidas e um pavio foi aceso. A imagem do profeta Maomé é proibida pela religião islâmica, a Europa toda sabe disso. Por que acender  fósforos próximo a tambores de gasolina?

O mundo é diverso, cheio de diferenças, desigual. O oriente islâmico e a Europa cristã vivem sob tensão há mil e duzentos anos. O Islamismo é uma religião do século VII que nunca passou por uma reforma como o Cristianismo. Não teve um Lutero, um Wycliff, um Calvino. A maneira como o islamismo trata as mulheres e os homossexuais, e outras práticas são incompatíveis como o mundo moderno. E a ciência e tecnologia integraram o mundo, deixando-o pequeno. Todo mundo se vê. Portanto, cutucar o fundamentalismo islâmico no que ele tem de mais sagrado em nome da liberdade de imprensa é uma irresponsabilidade. Lembrando que a comunidade islâmica condenou o atentado.

Fico imaginando como estão os familiares dos jornalistas e dos inocentes vítimas dessa barbaridade. Eis o grande problema dos radicais: em suas ações eles não destroem apenas si mesmos,  mas também aqueles que estão ao seu redor.

Os artistas radicais do ocidente encontraram os radicais islâmicos do oriente, e só poderia terminar assim, desgraçadamente, em tragédia. O Mundo continua torto!