Representai bem o papel de homem

Não há nada mais frustrante, deprimente, desolador e vergonhoso do que a inação, a indolência, a preguiça, esses poderosos combustíveis geradores de pobreza e mediocridade. Quando os cristãos puseram a Preguiça entre os Sete Pecados Capitais ao lado da Luxúria, Ira, Gula, Soberba, Inveja e Avareza, eles sabiam o que estavam fazendo. Ao convivermos, enfrentamos ambientes em que o desleixo, a indolência, a ociosidade e, principalmente, a indiferença predominam – dão o “tom da música” –, sentimo-nos pequenos, fracos, desolados, despidos e entristecidos diante da ausência do espírito que deveria impregnar todo ser humano: a vontade de criar,  trabalhar, fazer, escrever, produzir, exaltar, mover as coisas e as pessoas. Se o homem é produto do meio em que vive, e isso é certeza, então estar entre homens e mulheres indiferentes, preguiçosos e indolentes é fazer parte de um círculo em que Dante Alighieri condenaria ao inferno!

Sabemos que o brasileiro é um povo completamente desprovido de espírito comunitário e, principalmente, de espírito público, o caráter que rege a maioria dos povos que compõem as nações mais prósperas do mundo, que tiraram seus cidadãos da miséria e da pobreza e os tornaram homens prósperos e orgulhosos de sua comunidade e de suas famílias. Quando observamos o que a grande maioria dos nossos homens públicos –, seja o mais modesto vereador, passando por prefeito, governador, senador (esses são os piores), juiz, secretários de estados, presidentes de associações comunitárias, presidente da república, promotor, e muitas e muitas outras ocupações, observamos, com enorme tristeza, a falta de interesse dessas pessoas em ajudar a resolver os problemas da comunidade, instituição, estado, bairro, rua ou cidade em que vivem. Em quase todas as situações, vigora o interesse individual. Ou seja, o interesse de enriquecer, se locupletar, se apropriando dos bens e do dinheiro dos impostos que deveriam servir àquela coletividade. Creiam-me, esse é o maior problema do Brasil: a falta de espírito público, de senso de coletividade.

Quando olhamos o que anglo-saxões, coreanos, japoneses, escandinavos e agora chineses, embora tenham cometido erros colossais no passado, alcançaram em suas nações, em benefício de seu povo, tirando-os da pobreza, enriquecendo-os em todos os aspectos da vida social, nós nos envergonhamos de ser brasileiros. Repetimos e sabemos, e o resto do mundo nos relembra todos os dias: como que uma nação gigantesca, abençoada por Deus, cheia de rios, com um clima e uma terra excelente sob qualquer ponto de vista, não consegue diminuir, minorar, melhorar a vida de uma enorme parte de seus cidadãos, que vivem em um clima de terra desolada, hostil, pobre e violenta? Como que o Brasil não consegue resolver o problema da pobreza, sendo o país mais rico em recursos naturais do planeta, recursos que os japoneses, o povo mais desenvolvido do mundo, nunca teve? Como? Simples, muito simples: falta espírito comunitário ao povo brasileiro, falta espírito público aos homens públicos brasileiros!

A preguiça, a indolência, a indiferença são males contagiosos que contaminam e destroem o que está a seu redor, gerando uma espécie de peste, semelhante a peste do livro homônimo de Albert Camus. Camus se referia ao doloroso período em que ele viveu, o da Segunda Guerra Mundial, em que se respirava apenas destruição. Mas estou me referindo aqui a um período de paz, esses que estamos vivendo. Estamos cercados de indolentes, de gente preguiçosa, que não entende que o trabalho é o único instrumento que conduz à felicidade, ao sucesso, não ao bem-estar individual, egoísta, de si para si, mas ao bem-estar da coletividade, da comunidade, da instituição a qual ele faz parte, e da qual é pago por essa comunidade para trabalhar e gerar riqueza para todos.

O grande Michel de Montaigne escreveu em seus Ensaios “Desempenhai bem e corretamente o papel de homem; onde não houver homens, procurai comportar-vos como um”. Vivendo nesse ambiente pérfido, é preciso seguir o conselho de Montaigne,  comportar-se como Homem, e ganhar a vida honestamente, trabalhando todos os dias. Procurando ajudar nossos semelhantes, fugindo dessas “Almas tímidas e frias” que nos rodeiam!

Pois digo e repito para todos a sentença de Shakespeare “Esses pobres tempos corruptos precisam de amparo”.

Ah, Sim! Meu consolo é a literatura!

Shakespeare e a Natureza dos Homens

É Brutus quem pergunta a si mesmo acerca da personalidade do grande Júlio César, o maior de todos os romanos: “O caso está em saber até que ponto possa modificar-lhe a natureza…Para dizer a verdade, nunca soube que as paixões de César dominassem mais que sua razão”. Brutus tem conhecimento que César, Cônsul de Roma, quer tornar-se ditador do grande império! Brutus é membro do Senado, um dos homens mais cultos de Roma, de família nobre e uma espécie de filho de César. Brutus gosta de César, e tem conhecimento que uma conspiração dos senadores planeja matar o grande homem. Assim, rumina sobre o que fazer para que César continue vivo, abrindo mão de seus propósitos ditatoriais, contrariando sua natureza ambiciosa de ser imperador de Roma! Isso é possível? Será que César pode contrariar sua própria natureza?

Quantos de nós já não nos perguntamos se é possível mudar a natureza das pessoas! Contrariar a fábula do Escorpião e do Sapo? O enredo é o seguinte: “Um escorpião pede a um sapo que o leve através de um rio. O sapo tem medo de ser picado durante a viagem, mas o escorpião argumenta, que se picá-lo, ele também morrerá. O sapo concorda e começa a carregar o escorpião, mas, no meio do caminho, o escorpião ferroa o sapo, condenando ambos. O sapo pergunta por que o escorpião o picou, o escorpião responde: que esta é a sua natureza e que nada pode alterar o destino”.

Quantos de nós ao, longo da vida, já não nos deparamos com pessoas extraordinárias, irmãos, familiares, amigos, pessoas que amamos, ou figuras públicas dotadas de enorme capacidade de trabalho, brilhantes, mas que carregam consigo um germe – os gregos chamavam de destino trágico – que prejudica seu êxito, impedindo-as de chegar mais longe, de “chegar ao topo”, por questões que envolvem, quase sempre, os chamados Sete Pecados Capitais: ira, soberba, cobiça, luxúria… E que, mesmo “chegando lá”, acabam sendo destruídos. E pior, em sua desgraça, arrastam consigo família, amigos  e aliados. A soberba, a cobiça e a luxúria, quase sempre estão por trás das desgraças que os acometem.

O Júlio César. Fundador do Império romano,  de que falamos aqui é personagem da peça homônima de Shakespeare,  que foi assassinado por um grupo de senadores, entre os quais Brutus, filho de sua amante. Baseado no livro de Plutarco, Vidas Paralelas, Shakespeare romanceou os fatos de uma forma extraordinária, usurpando até mesmo a própria história com sua genialidade criativa O grande dramaturgo, aproveitou o assassinato de César para fazer uma poderosa reflexão acerca das paixões humanas!

Shakespeare sofria junto com seus personagens, vendo o enorme esforço que alguns deles faziam para “superar suas naturezas malditas”, caso de Macbeth,,cuja ambição, instigada pela sua perversa esposa, faz com que ele mergulhe numa orgia de assassinatos, para obter e garantir o trono da Escócia e, em seguida ser aniquilado. Macbeth não consegue superar sua natureza ambiciosa! Hamlet, um príncipe sábio, cheio de virtudes, mas hesitante, um homem diante de uma tarefa difícil de realizar: matar o assassino de seu pai, seu próprio tio, acaba provocando a morte de pessoas que ama, e a sua própria. Coriolano, um general nobre, guerreiro destemido, honrado e bem intencionado, não consegue refrear seu orgulho. Dotado de uma língua afiada, diz o que pensa (Alguém conhece Ciro Gomes?), é eleito cônsul de Roma, para horas depois perder o cargo, por conta de sua incontinência verbal. Em seguida, perde a própria vida. Temos ainda Othelo, um homem tomado de um ciúme doentio da esposa. Tímon de Atenas, dotado de uma generosidade extremada, achando que pode comprar o amor dos amigos. Ambos terminam destruídos. Shakespeare tem uma vasta galeria de personagens trágicos!

Continuando com seus pensamentos, Brutus dispara a seguinte sentença: “Todos nós nos levantamos contra o espírito de César e no espírito dos homens não existe sangue! Oh! Por que não podemos matar o espírito de César, sem desmembrarmos César?”. Brutus, que acaba se juntando aos conspiradores, vê que não é possível separar os homens de suas paixões. Assim, César tem que morrer!

Quando olho para os candidatos a Presidente da República, nesse momento tão sombrio porque passa o Brasil, me pergunto: O que fazer para mudar a natureza dessas pessoas? A resposta é: Nada! Somente uma doença mental ou um grave acidente é capaz de mudar suas naturezas! É isso!

O Direito e a Política

A comunidade jurídica já percebeu que, em um país desavergonhado como o Brasil, o Direito e as Leis estão subordinados à política. Que um político do interior da medieval Alagoas pode revogar uma decisão do Supremo Tribunal Federal. De que parte do senado brasileiro, alguns governadores e parlamentares podem reverter condenações e paralisar qualquer lei e sentença que lhes seja desfavorável. Observemos que os senadores do MDB, processados e condenados, Valdir Raupp, Ivo Cassol, que pertencem ao baixíssimo clero do Senado, não tiveram suas sentenças aplicadas, e que, graças a contorcionismos jurídico-políticos continuam livres, leves e soltos…e, pior, candidatíssimos às eleições deste ano. Sem citar os caciques do partido, Eunício, Renan, Jáder, Lobão, todos entupidos de processos pesadíssimos que tramitam há dezenas de anos e que não avançam. Assim, a lei não é igual para todos.

As indicações dos membros do Superior Tribunal de Justiça – STJ e do Supremo Tribunal Federal – STF são feitas pelo Presidente da República, ou seja, a indicação é política. Os indicados devem ter “reputação ilibada e notório saber jurídico”. Quem a aprova os candidatos é o Senado. Temos ainda o Quinto Constitucional, em que 20% dos membros de Tribunais regionais também ocorrem por indicação política. E dessa forma, sentenças as mais estapafúrdias acontecem. Portanto, concluímos que existe uma relação simbiótica entre o político e o judiciário.

Dito tudo isso, vamos constatar que, dentro desse quadro existe uma enorme ambiguidade envolvendo os dois poderes. Senão, vejamos. Os presidentes da República, o trágico Collor de Mello e Dilma Roussef, eleitos com muitos milhões de votos, foram afastados da Presidência, por intermédio de um processo de Impeachment, realizado pelo poder legislativo, Câmara e Senado, e presidido pelo Presidente do Supremo Tribunal Federal! Tudo bem, o processo de Impeachment é previsto pela Constituição, mas é um processo político, e dolorosíssimo para a nação. Por que é que digo que há ambiguidade nessa submissão do judiciário à política? Pelo simples fato de que você tira do cargo um Presidente eleito pelo voto popular de cinquenta e três milhões de cidadãos, e não consegue retirar um ministro do Supremo Tribunal Federal do cargo! Não é ambíguo e assustador isso? Não é estranho, para usar a linguagem de um deles, do primo do Collor, Marco A. Mello, que costuma dizer que “vivemos tempos estranhos”. Estranho por culpa dele! É ou não é ambíguo, escandalosamente estranho! Basta ver as várias denúncias contra alguns ministros do STF, e a quantidade de pedidos de impeachment de alguns deles protocolados no Senado Federal que, sequer são discutidos! Vão para a lata do lixo! Um ministro do STF no Brasil é intocável, um Deus acima do bem e do mal. Alguns ministros do Supremo comportam-se como se não devessem prestar contas a ninguém, a ninguém mesmo. E não prestam mesmo! O Senado simplesmente fecha os olhos para as acusações.

Está claro que parte do STF e do Senado agem de comum acordo, numa troca de favores, tipo assim: “Eu não os investigo e vocês não nos prendem”. Horrível, altamente destrutivo isso! A coisa ficou mais forte ainda depois da votação da chamada PEC da Bengala, em que o Senado aumentou de 70 anos para 75 anos, a idade de aposentadoria dos ministros do STF, que gerou efeito cascata para a magistratura em geral e para outras categorias do serviço público. Estranho, muito estranho!

Na verdade, toda essa história é um pacto silencioso para que o Brasil permaneça “O país do futuro”, um futuro que nunca chega. O título que merecemos é o de País Mais Injusto do Mundo, em que um grupo de pouco mais de mil pessoas controlam a vida de mais de 210 milhões de pessoas. “A prostituta Amarela”, o dinheiro de que fala Shakespeare em Tímon de Atenas está por trás de toda essa desgraça! Porque essa prostituta “Vai dar lugar aos ladrões, fazendo-os sentar no meio dos senadores (e dos juízes) com títulos, genuflexões e elogios…”. O Brasil que se lasque! O que mais podemos dizer!?

Brasileiros e Troianos

 

“Que há de espantoso? Existe, num governo vigilante, uma providência que conhece quase até o último grão de todo o ouro de plutão, que encontra o fundo de golfos incomensuráveis, que toma lugar ao lado do pensamento, e, quase como os deuses, desvela a ideia em seus mudos berços. Há na alma de um Estado uma força misteriosa de que a História jamais ousou ocupar-se e cuja operação sobre-humana é inexprimível pela palavra ou pela pena. Todo intercâmbio que tiveste com Tróia é para nós perfeitamente conhecido…”.

A sentença acima foi escrita em 1612 e está na peça Tróilo e Créssida, uma das ultimas tragédias escritas por Shakespeare (foi montada no Brasil por Jô Soares no ano passado). Estou utilizando-a aqui e agora porque acho que ela tem tudo a ver com o caos, a catástrofe que acabamos de assistir, de sofrer, no país. Se no início do século XVII, há quatrocentos anos, portanto, a Inglaterra já tinha um serviço de espionagem capaz de informar as tramas e golpes em curso na nação, como que o Brasil em pleno século XXI, com toda a tecnologia e pessoal disponível é, ou foi, incapaz de evitar a paralisação do país por um período de dez dias? Como?

Uma cambada de imbecis – a expressão é coloquial, vulgar, mas é perfeita – foram pra rua e pras redes para pedir intervenção militar, uma ditadura, a coisa mais fora de moda e estúpida possível, uma tragédia pertencente ao passado. Algo que nem os militares querem. As forças armadas têm seu papel constitucional, sabem da dificuldade que é gerir uma nação; sabem que a classe politica apodreceu; que a corrupção tomou conta do país; que alguns membros do Supremo Tribunal Federal, entre eles Gilmar Mendes e Marco Aurélio, trabalham diariamente para desgraçar o país; mas sabem também que, apesar disso, eleições diretas, a democracia, é a melhor forma de escolher, de conduzir os destinos da nação.

Ditadura não é solução para nada, pelo contrário, é uma desgraça com data para terminar. Sabemos que a esfera pública está infestada de bandidos, que merecem realmente ser fuzilados, tal o nível de depravação a que chegaram. Que o Senado, em sua maioria, é composto por uma ralé, o que há de mais corrupto no país, são ladrões declarados que riem do sofrimento do povo e da agonia da nação. Esse bando de depravados de cabeça branca, que deveriam ser o esteio de decência do país são exatamente o contrário: um bando de ladrões descarados! O Senado no Brasil é o contrário do que deveria ser, de um corpo de homens sábios e veneráveis, fez-se o oposto: lá, quanto mais se envelhece, mais se envilece. Mais deprava! Não vou falar da Câmara dos Deputados – basta ver que todos os seus ex-presidentes estão presos – a Câmara não merece comentários! A renovação tem que vir nestas eleições.

Há quem diga que sua situação é tão desesperadora, que Michel Temer e sua turma deixaram isso tudo acontecer para que o país se tornasse uma nação sem rumo. Assim, eles se livrariam da cadeia que os espera de portas abertas em janeiro de 2019. Não acho que Temer seja tão ingênuo ao ponto de acreditar nisso! O Brasil não sairá dos trilhos, está desgovernado, mas encontrará sua rota. Infelizmente, vamos ter que suportar esse sujeito até o final de 2018. Serão sete meses de agonia! Mas “É preciso suportar o insuportável”, parodiando o Imperador japonês Hiroíto, durante a Segunda Guerra Mundial, pelo bem do país!

Temos de estar conscientes de que as quadrilhas que tomaram conta do país querem transformar o Brasil numa espécie de Tróia – digo isso para fazer um paralelo com a cidade grega que foi destruída por seus pares, objeto da peça de Shakespeare. Crise em grego é claridade, espero que essa crise brutal, uma das maiores em que o país já viveu, seja o prenúncio de mudanças, de vermos claro. Nós não aguentamos mais o Brasil!

A greve dos caminhoneiros foi um movimento dos donos de transportadoras, da extrema direita e de um bando de marginais que, sabedores do descontentamento geral, com essa política louca e confusa do preço dos combustíveis, que aumenta, varia, todos os dias. A eles, se juntou uma parte do país. Na verdade, tudo isso tem a ver com a corrupção, a doença do dia a dia do país! Até quando suportaremos isso?

Bruce Lee, a China e o Brasil

Nesses tempos sombrios, em que o Brasil é governado por um bando de sem-vergonhas, por organizações criminosas entranhadas nos três poderes da República, em que a safadeza e a corrupção são imperativos, tudo que escrevermos e dissermos sobre o tema aparenta fraqueza – pois só o povo nas ruas pode calar esses canalhas tratados por excelência –, resolvi escrever sobre outra coisa, sobre alguém, aparentemente, bem distante de tudo isso: vou falar de Bruce Lee. Bruce Lee, isso mesmo! Por que Bruce Lee? Que diabos tem a ver um ator, lutador de kung Fu, que morreu quase meio século atrás, com as mazelas do Brasil, um país tropical sem presente e sem futuro? Por quê?

Então, eu respondo: porque, entre outras coisas, Bruce Lee faz parte da minha infância nos anos 70, encarna, em seus filmes, a luta contra a exploração e a corrupção, é o oposto de todos esses bandidos que estamos enfrentando no Brasil; ajudou a pôr a China no Mapa e porque ele absorve completamente a sentença de Hamlet: “Que obra prima é o homem! Como é nobre pela razão! Como é infinito em faculdades! Em forma e movimentos, como é expressivo e maravilhoso! Nas ações, como se parece com um anjo! Na inteligência, como se parece com um Deus! A maravilha do mundo! Protótipo dos animais”.  Destaco, mais enfaticamente, para Bruce Lee, a frase “Em forma e movimentos como é expressivo e maravilhoso”.

Talvez alguém me chame de louco, idiota por misturar Shakespeare com um lutador de artes marciais! Vou provar aqui que Bruce merece ser contemplado pelo elogio de Hamlet! Só mais uma observação: quem disser que o que está acontecendo no Brasil faz parte de uma onda que afeta o mundo todo, está dizendo besteira. Trump, o gorducho coreano, estado islâmico e alguns nazistas na Europa, não têm nada a ver com a esculhambação brasileira! A depravação brasileira foi construída por nós mesmos! É coisa nossa!

Pouquíssimos seres humanos chegaram a uma perfeição física, mental e espiritual “mens sana in corpore sano” como o garoto chinês, nascido nos Estados Unidos e criado em Hong Kong, do que Bruce Lee – Lee Jun-fan, em chinês. Nascido em 1940, mesmo ano de John Lennon, na década que daria à humanidade praticamente todos os ícones culturais que iriam moldar o século XX a partir de então, Bruce foi meio azarado por ter nascido chinês! Explico. A China era um gigante obscuro, uma nação de quase cinco mil anos, que intercalava períodos de triunfo e tragédia. Já uma nação dividida há centenas de anos, a primeira metade do século fora imensamente trágica, quando os chineses foram aterrorizados pelos japoneses. Muitos migraram. Os que chegaram à América, os EUA. “a terra dos sonhos”, eram considerados racialmente inferiores, e “tratados como cachorro”, talvez pior. Bruce sofreu isso na pele, na Califórnia, o estado onde morou na juventude.

Garoto brigão, consciente de seu talento, lutava contra o preconceito, nunca aceitou que o tratassem de forma humilhante. E foi cavando sua ascensão, mediante a prática do Kung Fu, uma arte marcial chinesa, milenar, que aprendera em Hong Kong. Enquanto treinava, estudou filosofia na Universidade de Washington, leu muito psicologia, teatro e escreveu sobre o aprimoramento do corpo e da mente. Logo ele estava dando aulas de Kung Fu para as estrelas de Hollywood – Steve McQueen, James Coburn…

Bruce exercitava incansavelmente corpo e mente diariamente, chegando ao ponto de fazer flexões apenas com o polegar, e mesmo a quebrar uma tábua grossa com um único soco a 10 cm de distância. Seus passos, seus saltos, sua dança (fora dançarino de Cha, Cha Cha), sua resistência, sua força, sua habilidade e, principalmente, sua velocidade, logo deixaram claro para todos que ele não era um ser humano comum, mas uma espécie de super-homem. Bruce casou com uma americana, teve um casal de filhos, sendo um marido e pai dedicado e amoroso.

Em seguida, estava fazendo filmes em Hong Kong – seus pais eram atores de teatro, e ele fora ator mirim. Seus dois filmes estouraram em Hong Kong, ele fez a série Besouro Verde, para a TV americana, todos um enorme sucesso. Mas perdera o papel na série televisiva Kung Fu, para um louro americano, David Carradine, tudo por puro preconceito. Mas o preconceito não venceu, o sucesso veio. Criando um novo estilo de filme, “os filmes de Kung Fu”, em que ele era roteirista, ator e diretor, filmes simplórios, mas que iriam encantar toda uma geração, e encher o ocidente de academias de artes marciais, e transformá-lo num ícone mundial, um mito, um ídolo para crianças, jovens e quarentões. Hollywood dobrou-se ao seu talento, e Bruce Lee fez seu primeiro filme hollywoodiano! Faltando uma semana para a estreia, Bruce morreu, aos 32 anos, de uma dor de cabeça, em consequência de um analgésico. Na autópsia, foi constatado que seu corpo não tinha um grama de gordura. Era só músculos! Morreu o homem, nasceu a lenda!

Assim o furacão chinês varreu o mundo. Seu filme Operação Dragão arrecadou mais de cem vezes o seu custo. Seus vídeos se espalharam e o mundo todo pode ver suas performances: seu corpo perfeito, beleza física, seus saltos, seus voos, sua elegância de bailarino, estilo, força física, agilidade e uma velocidade que as câmeras da época não conseguiam registrar. Até hoje se usa câmara lenta para ver os movimentos de Bruce Lee. Quando ele usava o Nunchaku (dois bastões conectados por cordão ou corrente), parecia que eles faziam parte de seu corpo, tal a precisão e velocidade dos movimentos. As peças ficavam quase invisíveis. Nem Nijinski, Isadora Duncan, Nureyev, Fred Astaire, Cassius Clay e Michael Jackson chegaram à beleza física e a elegância de “forma e movimentos” de Bruce Lee. A quantidade de imitadores que surgiram após sua morte é enorme! Mas nenhum chegou perto de seu brilho e caráter únicos!

Três anos após a morte de Bruce, morria também Mao Tse Tung, o líder brutal que unificara a China,  e nascia a nova China, de Deng Xiaoping, que iria crescer num ritmo vertiginoso, tornando-se a nação mais rica do planeta, deslocando, até certo ponto, o centro do mundo para o oriente. Japão, China, Coréia e outros tigres asiáticos provaram ao mundo branco que os amarelos não são inferiores.

Bom, vamos para o Brasil! E o Brasil? O país do futuro? Durante parte desse tempo, de 1980 para cá, o Brasil só patinou, continuou sendo uma promessa, perdemos a corrida, e continuamos sendo “O país do Futuro”, um futuro que nunca chega. Atolamo-nos na podridão da inércia e da corrupção.

Por isso que trouxe Bruce Lee de volta para dizer que ele foi o chinês que mostrou que seu país e seu povo mereciam respeito e que podiam integrar o primeiro time das nações. Coisa que o Brasil não consegue, apesar de ter as condições materiais, geográficas para fazê-lo, até de sobra. Escravos de uma elite cruel, covarde e desumana continuamos patinando para trás. Patinando, escorregando e caindo o tempo todo. Não temos, nem de longe, um símbolo, uma bandeira, um Bruce Lee, que nos diga que podemos chegar lá!

É isso que eu quero! Que apareça um Bruce Lee!

 

Huxley e Shakespeare – Admirável Mundo Novo

A belíssima sentença Admirável Mundo Novo que dá título ao livro de Aldous Huxley, e que, quase todo mundo pensa que é de sua autoria, na verdade, pertence a Shakespeare. Não que Huxley tenha tentado se apropriar dela, longe disso, ele a pôs na primeira página de seu famoso livro como uma citação shakespeariana. Mas, como o livro já passou dos oitenta anos, e goza de enorme prestígio, sendo um clássico, a verdade sobre a autoria da frase já se perdeu.

Essa belas palavras são ditas pela jovem Miranda, na peça A Tempestade, uma das últimas de Shakespeare. Miranda morava isolada numa ilha com o pai, duque de Milão, que fora banido pelo irmão, quando Miranda tinha apenas um ano de idade. Ao completar catorze anos, o pai, dotado de poderes mágicos, capaz de alterar o tempo e mexer com a natureza, traz os milaneses para a ilha. É lá que Miranda, vendo homens pela primeira vez, exclama: “Oh! Maravilha! Quantas criaturas adoráveis estão aqui. Como é bela a humanidade! Oh, Admirável Mundo novo em que vivem tais pessoas”. Lindo, não é mesmo! Foi que foi nessa época que ocorreu a descoberta da América.

 

Três séculos separam Aldous Huxley de Shakespeare. Era inglês como ele e, como tal, um leitor do bardo. Filho de uma família de gênios, era neto do célebre cientista Thomas Huxley, defensor e amigo de Charles Darwin. O livro Admirável Mundo Novo foi publicado em 1932, tornando-se um sucesso quase imediato, sendo lido e devorado como um clássico que anteciparia muitas das questões da modernidade.  Trata-se de uma utopia, um livro pessimista quanto ao futuro da humanidade. Huxley prevê um estado totalitário controlado por uma minoria, detentora de uma ciência pervertida que transforma os seres humanos em meros robôs criados em laboratório. Ele ironiza a fé cega no processo científico e materialista. Diz, literalmente, que “No futuro haverá uma ditadura científica que transformará os homens em robôs”. Ou seja, a ciência e a tecnologia criariam um mundo de horror, frio e ditatorial, “superpopuloso que drenaria os recursos naturais do planeta”.

 

Huxley viveu no período em que imperava o fascismo em quase todo o mundo – ele morou vinte anos na Itália —, na fase das guerras mundiais que devastaram a humanidade. O período dos sanguinários ditadores Hitler, Mussolini e Stálin. Era um tempo de pouca, pouquíssima esperança. Prevalecia nessa época também, uma mania por áreas das ciências voltadas para a destruição do ser humano, em virtude de teorias raciais. Era uma espécie de doença. Foi baseado nisso que alemães, russos e japoneses aniquilaram milhões de seres humanos considerados “raças inferiores”.

 

Nem de longe quero diminuir o livro de Huxley, pois ele nos aponta uma série de perigos que vamos enfrentar com o avanço da ciência e tecnologia. Vide as bombas atômicas que vieram a seguir, e muitas outras armas de destruição em massa, sem falar nos medicamentos criminosos que foram usados em cobaias humanas. Mas eu diria que Huxley foi muito influenciado pelo clima de desesperança da época. Que embora estejamos enfrentando um momento preocupante, uma guinada autoritária, vide eleição de Trump, estamos longe do mundo assustador que Huxley previu. Mesmo em 1962, ano de sua morte – quando imperava a guerra fria — Huxley disse que a ameaça da ditadura tecnológica permanecia.

Não quero, nem é preciso colocar Shakespeare em contraposição a Huxley. O que se pode dizer é que Shakespeare continua atualíssimo mesmo após quatrocentos anos de sua morte. Tudo que ele diz sobre o ser humano é atual, premonitório, isso é unanimidade entre todos que o leem. É dito que nós não lemos Shakespeare, ele é que nos lê. Tenho certeza que Shakespeare não compartilharia da opinião que Huxley tem do futuro da humanidade, que ele tanto amava. Foi por isso que ele colocou o ser humano como centro de sua obra.

A provocação que faço aqui, dentro de uma Feira onde se fala de inteligência artificial, robótica – os robôs de Huxley? — tem como objetivo levar as pessoas, principalmente os jovens cientistas, a refletir sobre as preocupações de Aldous Huxley. A pergunta é:  será que a tecnologia é controlada por uma minoria autoritária que está transformando os homens em meros robôs? Afinal uma de suas teses é inegável: A superpopulação está drenando os recursos naturais do planeta terra. E aí?

Os Defenestrados ou a Revolta da Braguilha

A palavra defenestrado deriva de “finestra”, janela em italiano. Significa, literalmente, jogado pela janela. Ou seja, foi destruído, morto. A prática de defenestrar, matar pessoas, jogando-as pela janela, fato que pode acontecer em qualquer lugar, vem da antiga Boêmia, que no século XX virou Tchecoslováquia, e atualmente chama-se República Tcheca. Segundo o historiador Martin Gilbert, o ato de defenestração ocorreu pela primeira vez na sangrenta Guerra dos Trinta Anos, sendo repetida na Primeira e Segunda Guerras Mundiais e mesmo em outras ocasiões.

Pois muito bem, nos nossos dias, a palavra Defenestrado tem significado diferente, é usada para denominar alguém caído em desgraça. De alguém que cometeu algum tipo de vacilação moral, desvio de conduta, traição conjugal, embriaguez… É aquele indivíduo que “vacilou”, isso para usar um termo da moda. Mas a prática a qual quero me referir e, objeto desse artigo – em discussão na atualidade –, é a do cerco ao assédio sexual. A nova onda, como quase sempre, é oriunda dos E.U.A. Mais particularmente de Hollywood, o mundo do cinema americano.

A bola da vez é Harvey Weinstein, o superpoderoso produtor de Hollywood, responsável por uma enormidade de filmes, entre eles Shakespeare Apaixonado. O gigante Weinstein, ele é um homem enorme, foi acusado de assédio sexual por dezenas de atrizes do primeiro e segundo escalão da indústria. O mundo desabou na cabeça do grandalhão pervertido. Para começar, ele foi expulso da própria empresa da qual é dono, e que leva seu nome: Weistein Company. Foi proibido de trabalhar no Cinema, está enfrentando processos judiciais e acordos de leniência; foi abandonado pela mulher, pediu desculpas públicas, confessou ser um homem doente e deu início a um tratamento numa clínica para viciados em sexo – papo furado. Harvey Weinstein foi esmagado, defenestrado. É tão canalha, que contratava agentes do Mossad, o serviço secreto de Israel, inclusive, mulheres, já que ele é judeu, para vasculhar a vida de suas vítimas, possíveis delatores.

Depois do caso Weinstein, começaram a chover denúncias em Holywood. Outra vítima foi o grande e respeitado ator Kevin Spacey, desta vez por assédio homossexual a jovens atores e até a um filho de Richard Dreyfuss. Uma dezena de denúncias. É o ator principal do megassucesso House of Cards — em cima de Ricardo III, de Shakespeare – série do NETFLIX, em que interpreta o Presidente dos EUA. Spacey, não somente foi expulso de todos os programas que estava trabalhando, como também foi cortado do filme, quase pronto, em que interpreta o bilionário John Paul Getty. Um cataclisma. Confessando-se Gay, Spacey já está em tratamento em uma clínica de “viciados em sexo” e responde a vários processos judiciais. Foi amaldiçoado pela indústria para sempre,  e não se reergue mais. Foi defenestrado.

E temos Charlie Sheen, já praticamente destruído pela vida devassa que levava, é soropositivo, responde há vários processos por assédio sexual e por ter contaminado mulheres com o vírus da AIDS, foi agora acusado de ter estuprado o jovem ator Corey Haim (filme Stand By Me) em 1986. Haim tinha apenas 13 anos, e acabou se suicidando mais tarde. Silvester Stallone também foi acusado de abuso. Stallone já foi ator pornô. Aproveitando a onda, a atriz Meryl Steep, a poderosa e asquerosa – ela odeia os homens – indicada a vinte e três Oscars – resolve atacar Dustin Hofman, de forma covarde, por que “Ele teria pegado em seu seio” 40 anos atrás”. Até hoje não sei de onde vem o poder dessa mulher odienta.

É preciso punir os pervertidos, fazê-los pagar por seus crimes, embora haja muita hipocrisia nisso. Explico: Hollywood pune uns e perdoa outros. Para mim, o caso mais grave a que Hollywood silenciou é o de Woody Allen, que casou com a própria filha (adotiva) e abusou sexualmente da outra de treze anos de idade – há provas materiais. O fato foi denunciado pelo próprio filho de Allen e pela ex-mulher e mãe da criança, Mia Farrow. Mas Hollywood não disse nada para o crime imperdoável do genial psicopata, que continua fazendo filmes e gozando de enorme prestígio. Não assisto seus filmes.

E para dizer que não falei do Brasil, temos o caso do ator José Mayer, galã da Globo que atacou uma funcionária, uma maquiadora aplicando o famigerado “Ou dá ou desce”. Ele já tinha assediado várias outras. José Mayer acabou-se, foi defenestrado.

Todas essas pessoas foram, no dizer de Shakespeare, vítimas “Da rebelião de sua própria carne”, “Da rebelião de uma braguilha”, “Uma repetição imoderada, e quando bebemos morremos”, ou seja, da Luxúria. Kevin Spacey, Woody Allen, Meryl Streep e Dustin Hoffman me lembram mais uma vez o bardo de Stratford “Uns sobem à custa do pecado, outros caem por causa da virtude: alguns saem duma selva de vícios sem ter que prestar conta de nenhum deles”. É isso aí!

O Brasileiro está cansado

O povo brasileiro está cansado, muito cansado de ser roubado, e sabe que tudo já foi dito e pouco foi feito para prender os ladrões encastelados no Estado brasileiro. Ladrões com títulos de deputado, senador, governador, juiz, procurador, ministro, o Presidente da República etc. continuam fazendo galhofa de seus processos criminais, enquanto o Supremo Tribunal Federal faz de conta que os prende. O Brasil está nu e as ruas estão vazias. Não foi preciso uma revista Playboy para tirar a roupa e mostrar o corpo horroroso desse país apodrecido pela sem-vergonhice. É fato, no Brasil a política se sobrepõe ao Direito e À Justiça – Às leis! O que fazer? Pegar em armas? Como fizeram quase todos os povos do mundo, quando precisaram montar uma nação digna de se viver! O que fazer, essa é a pergunta?

Quando a gente acha que avançou, como foi o caso, tem 25 anos, do pé na bunda dado naquele depravado de Alagoas, descobrimos que o país está ainda pior, e de que a corrupção só aumentou e de que a lei não funciona quando os crimes envolvem senadores, deputados e outros safados de igual talante. Aquela figura satânica, oriunda da medieval Alagoas, que tem pacto com o demônio, que matou parte de sua família, continua dando as cartas, com mandato de senador e, pior, secundado por outro conterrâneo ladrão, que responde a dezessete inquéritos no STF – os dois continuam impunes, roubando e rindo da miséria do povo. O que fazer pra não pegar em armas?

Quando meus amigos me perguntam qual peça ou personagens de Shakespeare mais se ajustam ao que está acontecendo com o Brasil no momento, eu respondo que Júlio César, Tróilo e Cressida e Macbeth são as mais adequadas para explicar o mundo sombrio em que o Brasil está mergulhado. Mas neste exato momento, o reino de Macbeth está vigorando.

Não vou contar a história da peça Macbeth, rei da Escócia. Vou contar apenas um curto diálogo entre Macduff.e Ross. Macduff havia fugido para a Inglaterra, com medo de ser assassinado pelo tirano Macbeth, que havia matado o rei Duncam, e se apossado do trono. Ross vem trazer-lhe notícias das desgraças que fora acometida à nação. É como se estivéssemos no Brasil. Vejam!

“Macduff – A Escócia se encontra onde estava”?

“Ross – Ai. Pobre pátria. Mal se conhece a si mesma! Não podemos chamá-la de nossa mãe, mas de nosso túmulo, onde só riem aqueles que nada sabem: em que os lamentos, os gemidos, os gritos que ecoam no ar passam despercebidos; em que dores violentas são consideradas sofrimentos banais. O dobre de finados soa sem que se pergunte por quem e a vida dos homens de bem expiram antes que as flores murchem, sem que tivéssemos adoecido”.

“Malcolm – Qual foi a mais recente desgraça”?

“Ross – A que data de uma hora já é tão antiga que apupam quem a anuncia, pois, de minuto em minuto, uma nova é gerada.”

Quero me apegar a essa sentença: “Qual foi a mais recente desgraça?”. Ou seja, qual foi o último crime, o último roubo bilionário descoberto? É isso que vemos todos os dias nos veículos de comunicação: o Brasil penetrou no mundo das trevas, da roubalheira, da sem-vergonhice, da falta de caráter e do cinismo. Nossos dirigentes estão mergulhados até o pescoço na ladroagem. E assim, a toda hora somos surpreendidos por descobertas de saques e mais saques aos cofres públicos. Seja na Copa do Mundo, nas Olimpíadas, tribunais, construção de estradas, hospitais, escolas em todos os lugares se rouba. “Milhafres do inferno” para usar uma expressão em Macbeth.

O que fazer para não pegar em armas? Shakespeare tem sido meu consolo, meu freio, minha consciência para não perder a cabeça! Sou um indignado, e escrevo para dizer ao povo brasileiro para que acorde e lute contra a depravação que tomou conta do Brasil. Qualquer um que não se revoltar e fizer algo contra esse estado de coisas é cúmplice da morte dos milhares e milhares de brasileiros que morrem nas portas dos hospitais públicos por falta de atendimento. Consequência do roubo descarado e do cinismo desses ladrões engravatados de ar venerável.

O que fazer para não pegar em armas? Talvez o sinal de que algumas luzes já brilham no país, e alguns desses canalhas já estão vendo o sol nascer quadrado. Shakespeare nos diz que: “Não há longa noite que não encontre dia”.

O Juiz e o vendedor de balinhas

O Juiz e o vendedor de balinhas

Eu tinha acabado de ler, no site do Estadão, a notícia de que um juiz lotado num buraco do interior do Brasil tinha recebido um contracheque de 503 mil reais, quando um garoto passou correndo pendurando sacos com balinhas “por dois reais” nos retrovisores dos automóveis – eu estava parado no semáforo –, e uma senhora de uns 60 anos de idade me oferecia “cinco panos de chão alvejados) por dez reais. Era uma hora da tarde, sol escaldante, umidade baixíssima, um dia seco, daqueles que os brasilienses botam sangue pelo nariz. Confesso que lágrimas caíram dos meus olhos. Juro!

Quando vi aquele sujeito, aquele juiz, uma espécie de assassino, dizer para a imprensa que “Não tô nem aí” para o que a sociedade pensa disso, e de que tem mais 750 mil reais para receber de “diferença” e, de que boa parte de seus colegas de tribunal receberam cada um deles mais de 400 mil reais, eu estremeci. Juro que dá vontade pegar em armas. Deus que me perdoe. Mas é o que deve pensar qualquer brasileiro que tenha um pouco de senso de justiça, de vergonha na cara e capacidade de se indignar… Que país injusto é esse! Não é um idiota que está escrevendo aqui! Tenha profunda consciência do que é Direito, Justiça, Democracia… Mas o que eu acabei de presenciar no semáforo e na Internet é uma mistura de dor, sofrimento, revolta, piedade, canalhice, corrupção, imoralidade, roubo, assassinato…

Numa crise brutal como a que estamos atravessando, o poder judiciário, que presta um serviço enorme à sociedade, lotado de homens probos, trabalhadores, íntegros, dedicados, se atribuírem salários absolutamente imorais, dez vezes, vinte vezes o salário de um juiz do Supremo Tribunal Federal… É inaceitável. O caso acontece em todo país. A situação é pior nos estados mais pobres e nos rincões em que alguns juízes se acham deuses. Estou falando do poder judiciário, mas esse abuso, essa imoralidade, essa perversão está em todos os poderes dessa República de bananas podres chamada Brasil. Falta vergonha na cara! Bando de canalhas!

O gênio William Shakespeare, patrono do site em que se encontra esse artigo, a mente mais criativa da história da humanidade, nunca foi exatamente o que podemos chamar de um indignado. Ele era tão grande, que ser indignado era pouco pra ele. É possível que meus amigos shakespearianos me critiquem por eu ter um Site Shakespeare Indignado. Shakespeare amava tanto o ser humano e era tão obcecado por justiça, que ele sempre puniu exemplarmente seus personagens perversos. Chamo minha Página de Shakespeare Indignado, em vez de Shakespeare Apaixonado, porque é impossível não ser Indignado no Brasil, um país profundamente injusto. Não ser indignado no Brasil é ser um covarde. Quase um canalha. É dever dos homens de bem se indignarem com essa sociedade perversa.

Aquele garoto e aquela senhora que caçam trocados – o que não dá sequer para comer –sob um sol causticante, massacrante, são vítimas desse juiz dos 500 mil, que é pago para oferecer-lhes justiça.  No momento em que ele embolsa 520 salários mínimos em um único mês, e eles apenas meio salário, trabalhando como animais, ele se torna um assassino pior dos que os trombadinhas de rua. Altos salários são para grandes executivos, empreendedores, grandes empresários, artistas, pessoas que produzem e não para servidores do Estado, cujos salários são pagos com o sangue e o suor desses pobres coitados que são assassinados todos os dias pelo Estado, que deveria defendê-los!

Enquanto eu tiver um teclado e um computador para escrever, eu serei um indignado, um revoltado com a profunda injustiça social que acontece no Brasil. Serei um defensor das vítimas desse bando de perversos travestidos de autoridades públicas que visam apenas seus interesses e bem-estar. Não os perdoo, e vou continuar amaldiçoando-os enquanto estiver em cima do planeta Terra! Que vão para o inferno!

Reflexões Shakespearianas sobre o Brasil

O personagem de Shakespeare adequado para falar do Brasil atual é Tersites, o sarcástico e implacável praguejador, de Tróilo e Créssida, a maior peça política do bardo. Estamos vivendo um momento tão louco e doentio, tão cruel, tão sombrio, que estão faltando, na verdade, sobrando, palavras para analisarmos o suicídio da classe política brasileira e, porque não dizer, da maioria das instituições brasileiras. O comportamento destrutivo e criminoso de nossos homens públicos é semelhante aos dos combatentes da Guerra de Tróia, cenário em que se dá a história de Shakespeare.

Daí que só mesmo praguejando – já que ninguém quer se manifestar nas ruas – para exorcizar as dores que estamos sofrendo por conta da mais absoluta falta de espírito público da classe dominante brasileira, na verdade de quase todos os poderes constituídos da República, à exceção de um pequeno número de abnegados, que fazem enormes esforços para que a justiça, condição básica para que uma sociedade prospere, prevaleça. A impunidade gerou um monstro, um Godzila, que está destruindo o país e assassinado lentamente o povo brasileiro.

Nossa história se passa na Guerra de Tróia, em que os dois lados travam uma guerra por conta do rapto de Helena por Menelau, um general grego. Orgulhosos e arrogantes, príncipes, guerreiros e generais lutam há oito anos, segundo eles, por uma causa nobre: o rapto de uma princesa que vive languidamente com seu raptor. Mas Tersites discorda de que a causa é nobre, para ele, todo caos e destruição “tem por causa um corno e uma prostituta”. Disse tudo! Para Tersites, trata-se de “Uma boa briga para atirar uma facção rival sobre a outra e para fazer sangrias até a morte”  – Aqui no Brasil as facções políticas se juntam e fazem a sangria do país. E Tersites vai desfiando sua teia de pragas sobre todos aqueles homens e mulheres irresponsáveis que transformaram a vida das duas nações num inferno. O panorama geral é de que todos perderam o juízo, e de que a arrogância, a vaidade, a mentira, a traição, a vingança, a desavença permanente são o caudal de organização da sociedade.

As personagens principais têm os pomposos e legendários nomes gregos criados por Homero: Aquiles, Ulisses, Nestor, Pátroclo, Ajax, Cressida, Heitor, Menelau… Todos eles mergulhados numa loucura coletiva de escaramuças diárias. Da mesma forma que aqui no Brasil, com a diferença que as lutas diárias aqui são para roubar dinheiro público e lograr o povo.

Diante da loucura de Tróilo e Cressida, Shakespeare criou Tersites para ser o crítico dentro da peça. E Tersites faz uma leitura mordaz, aguda e cheia de sarcasmo  – e brilhante – de cada um desses homens públicos enlouquecidos. Assim, Ajax “Tem tantos miolos, quanto ele no cotovelo” e que “Seu cavalo decoraria mais rápido um discurso do que tu aprenderias um texto sem livro” e que “Ele usa o espírito no ventre e o ventre na cabeça”. O “velho e respeitável” Nestor “Cujo espírito já estava mofado antes que nossos avós tivessem unha nos dedos dos pés”. Parece que Shakespeare está falando de Michel Temer. Michel cheira a mofo, é um homem  mofado. Diz de Nestor, que: “Se quisesse sair, existiria Inteligência nessa cabeça? Pátroclo é “O retrato do que parece ser, ídolo de adoradores idiotas” – Como temos adoradores imbecis no Brasil!   E continua: “Ah, como pobre mundo está empestado de semelhantes moscas, esses rebotalhos da natureza”. Agamenon “Tem tanto cérebro quanto cera nos ouvidos”. Diomedes “É um patife de coração falso, um ordinário totalmente desleal” e que “O sol tirará luz da lua, quando Diomedes mantiver a palavra”. E conclui que “Por toda parte reina a luxúria! Só os pervertidos mandam”. “Por outro lado a política desses patifes que se gabam da própria habilidade, não deu resultados que valham uma amora silvestre”. “Reabilitaram a barbárie e a política tomba em descrédito”.

Vocês querem um melhor retrato do Brasil do que esse? “Olhai nossos homens públicos”! Não se trata de uma leitura totalmente atemporal do Bardo de Stratford?

Pegue a camarilha cínica que está destruindo o Brasil, acrescente dezenas, talvez centenas de bilhões de dólares roubados por eles, e temos um cenário shakespeariano da Guerra de Tróia no Brasil. Tersites termina dizendo que “Os verá enforcados, como patetas, antes que venha a por os pés debaixo de suas tendas”.

É o que eu e 95% dos brasileiros desejam! E termino dizendo: “Que vão para o inferno por um caminho semeado de prímulas”.