Giannetti e Caliban

Giannetti e Caliban

Atraído pela publicidade do livro Trópicos Utópicos, do filósofo Eduardo Giannetti, dirigi-me à livraria, como faço quase todos os sábados, para comprar um exemplar e ver os lançamentos da semana. Quando vi o livrinho – de ensaios – o mesmo gênero literário a que me dedico, fiz, como de costume, quando pego um livro que vou adquirir, procurar Shakespeare dentro dele. E, como imaginei, Shakespeare estava lá – ninguém escapa de Shakespeare – no ensaio 86, denominado Caliban e seu duplo. Os ensaios do livro são todos curtos, alguns, aforismos. O ensaio sobre Caliban não chega a cinquenta linhas. Li-o em pé, em menos de três minutos. Achei-o um desastre. Dei mais uma folheada no livro, e deixei-o no caixa.

Pois muito bem, o Caliban citado por Eduardo Giannetti é personagem da peça A Tempestade, uma das últimas escritas pelo bardo, e que ele aponta erradamente (como todo iniciante) como “a derradeira escrita por Shakespeare”, quando, na verdade, A Tempestade é o adeus de Shakespeare ao teatro, mas não sua última criação, ele ainda escreveria mais duas peças Henrique VIII e Os dois Parentes Nobres, ambas em parceria com John Fletcher. Em seu pequeno e desastroso texto, Giannetti fala de Montaigne e Shakespeare e conclui que: “A idealização ingênua do primeiro (Montaigne) tende a suscitar em nós um suspiro nostálgico e uma doce inclinação sonhadora, as trevas cristãs, a arrogância e o inegável racismo do segundo (Shakespeare) provocam um calafrio de horror”. Risos! Santa ignorância, Batman!

No textinho, Giannetti cita uma fala de Miranda, uma garota de catorze anos, filha de Próspero, o mágico que controla a ilha em que eles vivem. Miranda chama Caliban de “escravo abominável, beberrão, violento, incontinente, lascivo, incapaz de aprender o que seja, capaz de todo mal etc.”. Muito embora haja muito mais ataques ao engraçadíssimo Caliban na peça.

A quantidade de ensaios, teses, teorias, novelas, poemas, peças sobre Caliban e Ariel (o gênio alado, seu contrário na peça) é quase incontável. E hoje a visão de Caliban varia de “Uma besta aquática a um nobre selvagem com inumeráveis manifestações intermediárias”. A peça A Tempestade foi usada por ninguém menos do que Karl Marx, que de lá tirou exemplos para suas teses de senhor e escravo. Ele usou também a sentença “Tudo que é sólido se desmancha no ar”. Marx idolatrava Shakespeare!

Do nosso poeta adolescente Álvares de Azevedo ao francês Ernest Renan, de Sidney Lee (biógrafo de Shakespeare) ao fascista brasileiro Plínio Salgado, do uruguaio José Enrique Rodó, ao filósofo e poeta, da Casa das Américas, Roberto Fernandes Retamar inúmeros outros estudiosos do colonialismo/imperialismo/racismo se debruçaram sobre A Tempestade/Caliban para discutir a identidade do homem americano. A mesma coisa que Giannetti se propôs a fazer em seu livro.

Mas somente Giannetti “sentiu calafrios de horror com a arrogância e o racismo de Shakespeare”. É uma pena! Eduardo Giannetti não conhece, não leu Shakespeare. Caiu na mesma armadilha daqueles que apenas o folhearam, como fazem muitos filósofos, estudiosos, ansiosos para fazer uma citação. O filósofo Eduardo Giannetti não sabe que Shakespeare confunde a todos nós, já que se trata de uma inteligência ilimitada. Que sua obra é como a Bíblia, há um encadeamento entre todas as peças. E ainda, que a ambiguidade permeia sua obra. A Tempestade é uma das Peças Finais ou Romances do bardo, quase uma comédia. Caliban é uma espécie de vilão extremamente cômico. Como são centenas existentes na obra de Shakespeare. Jamais poderemos julgá-lo por duas ou três falas de seus personagens. Quando comecei a ler Shakespeare, na juventude chocava-me com suas falas. Só aprendi a conhecê-lo depois de muito tempo.

O Arielismo e o Calibanismo foram fonte de inspiração, como já disse, para profundos estudos sobre a questão do colonialismo. A contribuição de Shakespeare para o debate é gigantesca e já se arrasta por mais de dois séculos. Ater-se à fala isolada de um personagem para chamar Shakespeare de racista, demonstra um profundo desconhecimento de sua obra. Pergunto: Por que Giannetti não ligou para alguém para se informar sobre Caliban, sobre a peça ou saber um pouquinho mais sobre Shakespeare? Seu livro pode ser interessante, mas sua visão de Shakespeare desqualifica a obra, e ele cometeu uma enorme tolice em se meter com autor que desconhece. Só fiz esse reparo para corrigir uma injustiça. E repito: Giannetti não leu Shakespeare. Ou então, leu e não entendeu. Ponto!

Os 70 Anos da Segunda Guerra Mundial

Sexta-feira, dia 8 de maio de 2015, a humanidade festeja o fim da Segunda Guerra Mundial — o conflito ainda iria até 14 de agosto, no oriente, com os aliados lutando contra o Japão ­— com a rendição incondicional da Alemanha. Durante seis longos anos, mais de cem milhões de soldados combateram num conflito que envolveu os cinco continentes. No final, mais de sessenta milhões de pessoas estavam mortas – não há consenso sobre o número real, que pode chegar a oitenta milhões. Entre os mortos, vinte e sete milhões eram soviéticos. Quem mais sofreu foi a Polônia, que perdeu 15% de sua população. Europa e Ásia estavam devastadas, e dezenas de milhões de pessoas vagavam pelas estradas sem terem para onde ir.

Em 1871, os estados alemães, herdeiros das tribos germânicas que derrotaram o império romano em 476 D.C, finalmente se juntaram, sob o comando de Oto Von Bismarck, chanceler da Prússia e, depois de humilharem a França – vingaram-se de Napoleão que fizera o mesmo com eles setenta anos antes –, na guerra franco-prussiana, criaram uma nação denominada Alemanha. Extremamente organizados,  os alemães trabalharam sob o lema “ferro e sangue”,  montaram os maiores e melhores exércitos e resolveram dominar o mundo, pois esse era “o destino da Alemanha”.

Terra de filósofos, cientistas, músicos e juristas, considerados os melhores do mundo, os alemães, em 1914, estavam tão ricos e equipados quanto o império britânico, fonte de inveja da Alemanha. Assim, seu imperador Guilherme II, um homem recalcado, invejoso, brutal, resolveu encarnar o espírito alemão, cometendo toda sorte de asneiras diplomáticas, criando conflitos com os outros impérios, Russo, Britânico, Turco-Otomano e o Austro-Húngaro. E com este último se aliou, e em vista de um mundo cansado, velho, em que a humanidade flertava com a estupidez, uma guerra foi deflagrada em agosto de 1914, transformando-se na primeira guerra mundial, que deixou um rastro de destruição na Europa, e levou a Alemanha à desgraça, deixando-a de joelhos… e gerou um filho: Adolf Hitler.

Em poucos anos, a Alemanha estava de pé de novo. Seu povo organizado e trabalhador, com o mais alto nível técnico-educacional do mundo – a Alemanha ganhou a maioria dos prêmios Nobel do começo do século – estava preparada para se vingar das “humilhações do Tratado de Versalhes”, que reduzira seu tamanho e a obrigara a pagar pesadas indenizações, penalizando seu povo durante vários anos. Foi quando Hitler, um cabo desempregado de trinta anos de idade, que não estudou,  pintor fracassado, que dormia em albergues e bancos de praça, que ficara cego por um ano durante a guerra, montou  um partido, o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, apelidado de Nazista, e prometeu devolver a honra da Alemanha.

“O inferno está vazio e todos os demônios estão aqui”, diz Shakespeare em sua peça A Tempestade. Frase alguma poderia descrever melhor o que aconteceu com o povo alemão  – com poucas exceções – nos anos que vão de 1933 a 1945. Nasceu ali a máquina mais brutal e assassina da história. Os alemães, denominando-se “arianos”, a “raça superior”, transformaram-se em demônios e resolveram aniquilar a humanidade.

Em primeiro de setembro de 1939, Adolf Hitler mandou invadir a Polônia, e em três semanas, reduziu-a a pó. Em julho de 1940, a Europa estava dominada e escravizada, a França derrotada novamente e Paris virou um prostíbulo alemão. Hitler fez aliança com Japão e Itália para dividir o mundo entre eles. Somente uma nação lutava, a Grã-Bretanha, de Winston Churchill, o homem que disse não a Hitler e Mussolini, e lutou sozinho com os demônios por dois longos anos.

No oriente, o Japão fazia misérias, cometendo atrocidades inimagináveis na China, Coréia, Indonésia, Filipinas e ilhas adjacentes. Na Alemanha, Hitler escravizara doze milhões de europeus, mandara matar os judeus, homossexuais, deficientes, testemunhas de jeová, ciganos, negros e minorias, denominados por ele de escória da humanidade. Milhares de campos da morte foram montados em toda a Europa. Em algum momento de 1942, parecia que o mundo seria governado por satanás!

Como arrogância e estupidez são cegas, o Japão resolveu atacar os Estados Unidos da América, e a Alemanha a União Soviética (Rússia), duas nações incomparavelmente maiores e mais populosas do que elas. Foi o começo do fim! A coragem da Inglaterra, a riqueza da América e os soldados da Rússia colocaram Japão e Alemanha em seu devido lugar. Hitler deu um tiro na cabeça, Mussolini morreu como um porco e os japoneses conheceram o inferno. A paz voltou, a ONU nasceu, surgiu uma nova ordem, e veio a guerra fria. Mas isso já é outra história!