Um Novo Rei Lear

Quem quiser mergulhar no mais íntimo de nosso ser, nas profundezas, no mais recôndito de nossa alma e procurar desvendar o que ela tem de mais sombria, inescrutável, maravilhosa, sublime, deve correr e adquirir a nova tradução de Rei Lear, a mais densa e profunda das peças de Shakespeare. Já existem outras traduções de Rei Lear no Brasil, mas é que, além de impecável,  nenhuma delas traz um estudo tão minucioso, tão detalhista da mais complexa peça do bardo de Stratford. Trata-se da primeira tradução brasileira de Rei Lear, ou até mesmo de qualquer peça de Shakespeare, que traz amplo estudo sobre as origens da peça, bem como a dissecação de ato por ato, cena por cena, possibilitando um entendimento maior, esclarecedor do porquê de comportamentos tão ambíguos e contraditórios encontrados em Rei Lear.

A obra vem a ser uma edição da Penguin Books, Companhia das Letras, traduzida por Lawrence Flores Pereira, professor da Universidade Federal de Santa Maria (RS) e pesquisador de Estudos da Renascença da Universidade de Massachussets (EUA). Lawrence já traduziu Hamlet, Otelo e é vencedor do prêmio Jabuti. Sendo também tradutor de Antígona, de Sófocles.  Trata-se, portanto, de alguém com bagagem capaz de realizar tão hercúlea tarefa. Escrita em 1605, Rei Lear é considerada pelos críticos como uma peça que ainda merece estudos, não tendo sido completamente dissecada como foram outras obras de Shakespeare, tal sua complexidade, linguagem e pela quantidade de questões que levanta.

Rei Lear conta a história de um rei da antiga Bretanha, já octogenário, que resolve dividir seu reino em três partes, sendo um pedaço para cada filha. Na hora da divisão, ele pede a cada uma delas que lhe faça uma declaração de amor. Advertido pelos seus auxiliares do enorme perigo que aquela atitude insana pode provocar, Lear, colérico cumpre o que diz, desencadeando  uma desordem no reino com todas as consequências que um vácuo de poder ocasiona. Toda a ordem é subvertida e, duas das suas filhas e genros se digladiam em brigas internas. Já Cordélia, a sua favorita, que por ingenuidade ou despreparo é rejeitada por Lear,  na hora da partilha  casa-se com o rei da França e sai do país. As irmãs, agora poderosas, mas despreparadas e ambiciosas praticam abusos, rejeitam o pai, e brigam pela paixão de Edmundo, um perverso que manipula ambas. Sendo informada do ocorrido, Cordélia volta da França e ampara o pai rejeitado, maltratado e enlouquecido por suas irmãs. A história não termina aí.

Não vou discutir Rei Lear, vou me deter em apenas um dos vários aspectos da peça que remetem ao difícil momento que estamos vivendo. Falo do encontro pai e filha – uma das cenas  mais belas e redentoras na obra de Shakespeare – do reencontro de Cordélia e  Lear ao serem presos. Trata-se de uma cena que, além de encantadora e poética, fala com extrema propriedade sobre o exercício de governo, sobre as práticas do poder, quando ele é caótico e corrupto. Vejam a tradução de Lawrence, o mais fiel possível ao verso de Shakespeare.  Diz Lear para Cordèlia:

“Não, não. Vem, vamos pra prisão! Nós dois sozinhos vamos cantar como pássaros na gaiola. Se me pedires benção, eu me porei de joelhos, rogarei teu perdão. E assim vamos viver, e rezar, e cantar e contar velhos contos, vamos rir das libélulas louras e ouvir os pobres diabos co’as notícias da corte, e com elas vamos falar de quem ganhou, quem perdeu, de quem entrou, quem saiu, e vislumbraremos o mistério das coisas como se fôssemos os espiões dos deuses…”.

Hoje vivemos como pássaros trancados em uma gaiola sem poder sair de casa. Muitos vivem achando que são espiões de Deus e que, como Lear, estão imunes ao vírus, nesse momento em que respirar, pode provocar nosso fim… Ouvindo e vendo o tempo todo entradas e saídas de ministros desse governo horroroso que está matando o povo brasileiro. O que Shakespeare diz, de certo modo, em Rei Lear, é que um ato de desatino, impensado e egoísta pode levar a destruição e a ao caos.

Espero que, quando esse pesadelo passar eu possa poder reencontrar meus irmãos, amigos e familiares e cantar e contar velhos contos… e rir das libélulas e borboletas louras, vislumbrando o mistério das coisas… Leiam Rei Lear!