O Insustentável Peso de Ser set22

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O Insustentável Peso de Ser

Está insustentável carregar o peso de ser humano. A humanidade está muito doente! Está cada vez mais difícil suportar o dia a dia, já que, até mesmo o ato natural e involuntário de respirar o ar necessário para vivermos pode nos levar a morte. Vivemos com medo. A insustentável leveza de ser ficou mais forte, já que o prazer de viver virou recordação e a vida agora é uma espécie de fardo a ser carregado. E quem nos conforta é o passado. O simples prazer de sair de casa, abraçar, beijar, almoçar com nossos pais, amigos, família é um ato perigoso que pode nos aniquilar e destruir as pessoas que amamos. Essa é nossa cruel realidade. Por que isso tinha de acontecer? O que nos levou a uma cruel situação que pensávamos fazer parte de um passado já tão distante?

Nenhum de nós quer fazer a “Viagem misteriosa de onde nenhum viajante jamais voltou”, como diz Hamlet.  Muito embora muitos flertem com a morte, dado o nível de desequilíbrio mental em que vivem, tendo como principal exemplo nosso presidente Jair Bolsonaro, com suas ações negacionistas e irresponsáveis em relação à peste. A maioria de nós quer estudar, trabalhar, amar, casar, brincar, viajar, ou seja, viver em liberdade, mas isso nos está sendo negado. Vivemos como se estivéssemos navegando em alto mar, amedrontados, a bordo do Pequod, o navio do enlouquecido capitão Ahab, a procura da baleia Moby-Dick, personagens do livro homônimo de Herman Melville.

Se o mundo com Deus já não era tão bom assim, parece que o mundo sem ele é ainda pior. O declínio da fé em Deus é cada vez mais presente. O planeta em que vivemos está ficando menor e as ações que cometemos em cima dele estão maltratando-o, ao ponto de criar um desequilíbrio que provocou toda essa desgraça que estamos sofrendo e vendo apavorados de nossas janelas. O planeta Terra se tornou “Uma pestilenta aglomeração de vapores” assassinos. Foi a tecnologia, com suas viagens transoceânicas rápidas que tornou isso possível. Se em 1500, a viagem de Cabral, de Portugal a Bahia, demorou 44 dias, em 1976, o Concord fez esse mesmo percurso em menos de quatro horas. As viagens rápidas e em grande quantidade possibilitaram o transporte do vírus de forma bem mais rápida e incontrolável. O mundo ficou pequeno, tóxico, perigoso. A tecnologia nos deu esse presente de grego.

O que fazer? O mundo continua cada vez mais injusto e cruel e o homem está flertando com o caos e a mentira cada vez mais. A maldade é uma doença que não arrefece. As máscaras que usamos para nos proteger do vírus aéreo são mais frágeis do que as máscaras invisíveis que o homem veste o tempo todo para esconder a verdade que teima em existir, já que a verdade é o fato. Estamos vivendo um momento de virada, de mudança, qualquer pessoa estúpida sabe disso. Não me parece que daí surgirá um admirável mundo novo, uma bela humanidade como vislumbrava a jovem Miranda, em A Tempestade, peça de Shakespeare, de 1612, mas um mundo cheio de dores e atrocidades.

Para muitos, meio ambiente, ecologia, ecossistema são meras desculpas de esquerdistas para ocupar o mundo. Pura ignorância da turma da caverna. A Europa está apavorada e tem seus olhos voltados para o Brasil e a Amazônia, porque sabe da importância que a gigantesca floresta tropical tem para o equilíbrio ambiental do planeta. O Brasil tem perdido grandes negócios por conta de seu comportamento destrutivo em relação ao meio ambiente. A peste é consequência disso, afirmam os especialistas.

Parodiei, utilizei o famoso título do livro de Milan Kundera, porque ele se adapta ao momento atual, já que desnuda nossa pequenez e fragilidade diante do cosmos. Se Kundera falou disso em 1983, o que ele não diria agora, diante de tamanha catástrofe? Somos, como diz Romeu “Um joguete do destino”. Talvez Carlos Drummond de Andrade, nosso poeta maior, tenha inteira razão quando diz que “Nós somos apenas uns homens e a natureza traiu-nos”.