O Imortal Shakespeare

“Shakespeare é o mestre de cerimônias da humanidade”. Esse é apenas mais um entre os milhares de elogios dirigidos ao dramaturgo inglês William Shakespeare, nascido em 23 de abril de 1564, em Stratford-Upon-Avon, uma pequena cidade a cento e sessenta km de Londres. Escolhi esse elogio por achar que ele condensa bem um dos atributos do bardo de Stratford: a capacidade que ele teve de mostrar com extrema acuidade o papel que todos nós seres humanos representamos nesse imenso palco que é o mundo. Com trinta e nove peças teatrais, cinco grandes poemas e os célebres 154 Sonetos; mais de mil e trezentos personagens; um vocabulário de mais de vinte e uma mil palavras (o maior entre todos os escritores) das quais mais de duas mil são de sua inteira criação, ele realmente apresentou o ser humano no que ele tem de mais belo e sublime, e também o seu lado cruel.

O pensamento de Shakespeare está disseminado entre nós, sem que mesmo saibamos. Seus dramas, suas sentenças, seus versos estão incorporados ao nosso cotidiano, e nós o citamos o tempo todo, até mesmo de forma inconsciente. O teatro, a televisão e o cinema, quando eles são mais inteligentes e criativos, repetem Shakespeare exaustivamente.  Atores e atrizes ao interpretarem o bem e o mal: sarcasmo, riso, choro, fraqueza, poder, força, dor, alegria, felicidade, desprezo estão sempre reproduzindo personagens de Shakespeare.  A poderosa presença do cinema entre nós é fortemente influenciada pelo teatro de Shakespeare, e a sétima arte se eleva quando se apodera de sua sabedoria. Não é por acaso que mais de mil e cem filmes já foram feitos tendo sua obra como pano de fundo.

Shakespeare lidava com o sublime porque ele amava o ser humano, fosse fraco ou forte, bom ou mal. Seu pensamento alarga, expande a mente humana, fazendo o homem  pensar mais, sentir mais, ver mais, por intermédio de suas tramas e seus personagens, que em vez de serem lidos, nos leem, elevando-nos a uma dimensão muito maior do que estamos acostumados. Ler Shakespeare é ser lido, é se ver.  Ele diz em Hamlet “o segredo da arte é oferecer um espelho a natureza”. E  ninguém mais do que ele ofereceu um espelho melhor para o homem se refletir. E para tornar ainda mais forte esse mergulho interior, essa busca de interioridade,  ele se utilizou da mais sublime forma de arte, a  música, que ocupa um gigantesco papel em sua obra. Não existe Shakespeare sem música. São 121 canções em suas peças, e elas formam um conjunto com as tramas teatrais formando um todo complexo, fascinante, permitindo que sua mensagem penetre no mais íntimo de nosso ser.

Seus personagens são tão fortes, que muitos deles se confundem com o real, e até mesmo vão além do real. Sua história de amor, a maior de todos os tempos, entre dois adolescentes, Romeu e Julieta, confundiu-se com a realidade ao ponto de alterar a rotina da cidade de Verona, na Itália, que foi obrigada a construir casas e pontos turísticos em homenagem aos dois jovens, como se eles estivessem vivido ali, amado e morrido ali. Hoje a casa de Romeu e Julieta é um dos endereços mais visitados de todo mundo. Romeu e Julieta tornou-se o símbolo da relação indissolúvel e é a mais popular e bela história de amor de todos os tempos

Shakespeare é montado o tempo todo e em todos os lugares do mundo. Não há um único lugar do planeta que suas palavras não encontrem eco. Seja na África, Àsia, entre tribos indígenas, todos acham que ele tem alguma coisa a dizer-lhes.

Encontrar Shakespeare é uma experiência maravilhosa e surpreendente, por sua capacidade de encantar do mais humilde empregado a um poderoso estadista, e é lido, citado, estudado e admirado por artistas, filósofos, intelectuais de todos os matizes, seja à direita ou a esquerda, mais do que qualquer autor antes ou depois dele. Sua legião de admiradores passa por figuras tão díspares como Karl Marx e Sigmund Freud, Bismarck e Mendelsohn, Hegel e Nietzsche, Rudolph Von Ihering e Hector Berlioz, Samuel Johnson e Orson Welles, Machado de Assis e Nelson Mandela e muitos e muitos outros, que se encantam com sua incrível capacidade de surpreender-nos o tempo todo. Suas peças nos oferecem uma quantidade ilimitada de releituras, e nós podemos relê-lo sempre com a garantia de algo novo e surpreendente será encontrado.

Nosso maior homem de teatro, Nélson Rodrigues, que leu Shakespeare mais do que qualquer outro brasileiro, a exceção de Machado de Assis, cuja obra transpira o bardo por todos os poros, disse que “Toda unanimidade é burra”, e os brasileiros adoram ecoar essa frase. Eu diria que Shakespeare contradiz completamente a máxima de Nélson. Shakespeare, eu não sei como isso é possível, tem a capacidade de reinventar-se, e lê-lo ou vê-lo montado é uma fonte permanente de novas descobertas, transformando-o em um autor inquestionável e um clássico absolutamente necessário por tudo que tem a nos dizer.

Assim, quando ele diz que: “O mundo inteiro é um palco e todos nós somos atores”, Que “A vida é uma sombra que passa,  um pobre ator que aparece um instante no palco, e nunca mais se ouve falar dele, é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, nada significando”, “A teia de nosso vida é tecida ao mesmo tempo como o bem e o mal, nossas virtudes seriam orgulhosas se não fossem flageladas pelos nossos vícios, e nossos se não fossem compensados pelas nossas virtudes”. São sentenças como essas que elevam Shakespeare acima da turba.

Agora em 2016 o mundo comemora os 400 anos que ele morreu, se é que podemos chamar de morte alguém que continua a encantar a humanidade. Shakespeare é eterno.

Vida longa a William Shakespeare, “O homem de Mil Almas”.