O Homo Sapiens mascarado

Para Michel de Montaigne, autor do clássico Os Ensaios, sendo ele mesmo o criador do ensaio como gênero literário: “A vida é, em qualquer lugar, condição onde muito há de ser suportado e pouco há ser desfrutado”. Vivendo uma época difícil, segunda metade do século XVI, uma França em meio a guerras, cisma religioso e surtos de peste, o genial francês deixou um belo e grandioso relato – de raro valor entre todos os grandes autores – com suas reflexões sobre costumes, dogmas, amor, amizade, paixão, dor, alegria. No pensamento citado podemos ver que sua visão se adequa perfeitamente ao momento em que estamos vivendo. Afinal, estamos suportando a vida e não a desfrutando como sempre fizemos.

Quem diria um ano atrás que todos nós teríamos que andar mascarados, escondendo-nos, como os cowboys dos filmes de Hollywood, dos bandidos quando iam assaltar bancos ou diligências, dando tiros para cima. Muito embora, esse ato de “tapar a cara”, de hoje, tenha objetivo oposto ao dos cowboys. Quem diria que iríamos ter que esconder nossa face, a parte sagrada do corpo humano, aquela que nos identifica, nos dá identidade, registramos em fotos e diz quem somos nós: o Pedro, a Paula, o José a Maria. Por que precisamos passar por isso? O que fizemos de ruim para merecer o castigo de adoecermos e morrermos pelo aguilhão de um verme invisível? Quem diria que seríamos obrigados a lavar as mãos cinco, dez, vezes ao dia! Como que um ato de simples asseio, de higiene passou a ser obrigatório como se fôssemos culpados de um crime? Trata-se de um ato que remete a  lady Macbeth e seu complexo de culpa após matar o rei Duncan, dizendo: “…Como! Estas mãos nunca ficarão limpas?…Todos os perfumes da Arábia não purificariam esta pequena mão”.

Sabemos que a humanidade sempre enfrentou cataclismas, sejam naturais, ou provocados pelo homem. E o homem avançou muito por meio da ciência e da tecnologia e passou a controlar e evitar muitos dos fenômenos da natureza. Mas é uma verdade afirmar que, do ponto vista moral e espiritual, regrediu também, mesmo deixando de culpar as estrelas, e mesmo Deus ou o Diabo por conta de suas desgraças e calamidades. O Antropocentrismo, filho do Renascimento europeu, achava que tinha resolvido quase tudo, e o iluminismo declarou que Deus estava morto. Não há dúvida, a fé religiosa está passando por um duro teste. Não temos visto milagres. Pode ser que haja casos individuais, mas milagres notáveis ainda não vimos.  Pelo contrário, a crueldade está solta e progredindo.  O caso da deputada pastora Flordelis que, juntamente com cinco filhos e um neto matou, com requintes de crueldade, o marido também pastor com dezoito tiros na genitália e o caso da criança estuprada e perseguida por psicopatas religiosos por causa de seu aborto pertencem à categoria dos atos mais bestiais existentes sobre a terra.

Nossa vida foi interrompida de forma abrupta, violenta, implacável. Não somos mais os mesmos. Lavar as mãos o tempo todo é uma metáfora para o complexo de culpa de alguém que cometeu um crime ou se absteve de fazer algo: “Eu lavo as minhas mãos”. O uso da máscara é de igual teor.  Convenhamos, isso é muito forte. O Homo Sapiens,  o animal portador do “Cogito ergo sum” ou “Penso logo existo”, o único animal pensante sobre a terra e, quem sabe do universo, precisa saber que ele é principal  culpado pelo que está acontecendo. Temos que preservar o meio ambiente, ter consciência ecológica, cuidar com carinho da Terra, nosso lar, o planeta que habitamos. Foram essas agressões ao planeta que provocaram o germe que está consumindo a humanidade.

A sentença de Shakespeare dita pelo médico de lady Macbeth deixa claro: “Atos contra a natureza geram desordens na natureza”. Foi isso que aconteceu conosco, tivemos o mesmo comportamento criminoso da senhora Macbeth: nossos atos de agressão ao meio ambiente geraram o momento doloroso que estamos vivendo. E é hora de rever isso.