Todo o poder da música fev05

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Todo o poder da música

“Verbis defectis musica incipit”: “A Música nos leva aonde as palavras não podem”. Encontrei esse ditado latino em uma comédia americana, daquelas bem bobas mesmo, que sequer consigo lembrar o nome. Confesso que essa sentença provocou em mim um profundo impacto, levando-me a uma torrente de reflexões que jorram já a alguns dias e não me deixam parar de pensar nela. Não sei exatamente de quando é o ditado, nem quem é o autor, mas o certo é que se trata de uma sentença seminal, de extrema sabedoria, que diz tudo sobre o poder avassalador que a música exerce sobre a existência humana.  Quando se diz que a “Música nos leva…”, que ela nos transporta para dimensões que as palavras não podem descrever, que é apenas sentir, sonhar, viajar na imaginação, temos que aceitar, e é assim que que é, e dizer que ela tem o poder de nos por numa espécie de círculo mágico, de encantamento.

Sei que não estou dizendo nada de novo, mas sei que a música carece de uma definição, já que seu caráter é efêmero, quase único, e pleiteia uma harmonia e comunhão do homem com a natureza, o cosmo, com Deus! Portanto, seu caráter é sublime! Também até aí nenhuma novidade! Cantamos quando estamos felizes. Quando estamos tristes a música nos consola “Ou embala a nossa dor”, como diz o Bardo. Uma boa notícia que recebemos é sempre comemorada com um cantarolar, um tra lá, lá, uma esticada até um bar, ou outro lugar para brindarmos ouvindo uma bela música.  Cantar é estar de bem com a vida. Todas as civilizações, culturas, desde às mais selvagens  as mais sofisticadas, produzem algum tipo de música. E sua criação ou audição é sempre um ponto alto dessas sociedades.

Aqueles que cantam e tocam – com excelência – parecem ter recebido uma espécie de toque divino, são iluminados! São tratados como deuses, e chamados de estrelas, e objeto de culto, tornando-se ídolos de pessoas de todas as idades, etnias e crenças.  As mulheres são chamadas de Divas. Ninguém é mais festejado, incensado, endeusado do que uma pessoa que canta e cuja voz é excepcional. As fotos e imagens desses “deuses” são pregadas nas paredes dos quartos de seus fãs, ou mesmo viram estátuas em jardins de suas casas, sendo admiradas por uma vida inteira. E essas pessoas, esses artistas, reúnem mil, dez mil, e mesmo centenas de milhares de pessoas para vê-las cantar e tocar. Os espaços, praças, estádios e arenas se transformam em lugares de celebração em que multidões cantam em comunhão liberando uma energia que ecoa por todo o mundo por meio dos veículos de comunicação podendo atingir bilhões de pessoas. Apenas atores e atrizes, também chamados de astros, que vivem num ambiente permeado por música; ou jogadores de futebol, que não têm, nem de longe, a harmonia provocada pelos sons da doce música, gozam do mesmo prestígio.

A quantidade de gêneros musicais é quase infinita, vai desde uma batida de tambor, ou um mero apito, passando pelo silêncio absoluto, o som da guitarra elétrica, a tristeza de um violino, a elegância de um piano, ao arrebatamento de um saxofone, a força de uma ópera, a voz de uma Diva, a voz de um barítono ou de um tenor italiano. Da sofisticação da Ópera de Paris ou dos teatros de Viena, dos estádios e arenas, até a mais humilde aldeia africana, a música está presente para sacudir, elevar  nossa existência.

Friedrich Nietzsche diz que “Sem música a vida seria um erro”. Seria mesmo! Em uma outra sentença ele faz uma brilhante observação sobre seu poder de encantamento: “Aqueles que dançavam foram tido como loucos por aqueles que não conseguiam ouvir à música”. Sim, é dessa forma que podemos enxergar, de longe o poder que a música exerce sobre as pessoas. Quando dançam, é como se elas estivessem sob o poder de uma força misteriosa. Quando cantamos, celebramos a vida!

Arte alguma tem a gratuidade da Música. Pessoas se espantam com crianças virtuoses, mas não deveriam fazê-lo, que aos cinco, seis anos de idade, tocam piano como um músico adulto, ou cantam como Maria Callas. Temos de lembrar que Mozart compôs seu primeiro Minueto quando tinha três anos e seis meses de idade. Como música é matemática, espaço e tempo, isso é totalmente possível. O mesmo não acontece com outras formas de arte. Criança alguma é capaz de escrever um belo texto aos quatro anos de idade. Simplesmente, porque, para escrever, ela precisa conhecer o alfabeto. Consoantes, vogais. A Música não precisa de qualquer conhecimento.

Todo mundo tem seu estilo de música favorito, seja de que época for, muito embora a música que escutamos nos nossos primeiros vinte anos de vida sejam muito marcantes. Tudo aquilo que embalou nossa juventude fica conosco por toda a vida toda vez que ouvimos uma canção, a nostalgia está presente, e as lembranças vêm e, trazendo na memória aqueles momentos vividos, seja de dor, alegria ou êxtase.

Minha juventude foi marcada pelo advento do Rock and Roll, que tem dominado o ocidente e partes do oriente desde o início dos anos sessenta até os dias de hoje. O americano Elvis Presley e os ingleses The Beatles viraram uma mania que tomou conta do mundo gerando uma onda de seguidores de seus estilos, catapultados pelo enorme poder de um novo veículo chamado televisão. Para muitos, o Pop Rock empobreceu a música, para outros, só existe Rock’n Roll. Para os roqueiros, tudo que não for Rock, é música de gente ultrapassada.

Olhando para trás, eu diria que a melhor música feita até hoje, e que, realmente faz com que “encontremos Deus”, foi aquela feita na Europa nos séculos XVIII e XIX. Não consigo ver uma música para dizer mais a alma dos homens do que as composições de Bach, Mozart, Verdi, Beethoven, Mendelsohn e outros compositores clássicos. Suas sonatas, sinfonias e óperas nos  remetem a um mundo que não é esse caos em que vivemos. Quando um crítico disse que “Deus fez o mundo para que  Beethoven compusesse a Nona Sinfonia”, acho que ele não estava exagerando. Risos. Toda vez que ouço a Nona, eu viajo para outro planeta. Não sei qual.

Ao mesmo tempo que louvamos a Música, temos de criticar a música ruim, sem qualidade, sem harmonia. Uma voz feia, uma corda dissonante machuca os nossos ouvidos. Todo mundo acha que pode tocar e cantar docemente, porque todos nós queremos ser eternos. Assim, devemos perdoar todos aqueles que seguram um violão e o dedilham enquanto cantam, pensando estar agradando; ou daqueles que formam uma banda, põem um nome estranho e chamam os amigos e a família para ouvi-los. Deus os perdoa e nós também! Basta ver os chamados shows de “voz e violão”, que enchem os barzinhos do Brasil, que são, muitas vezes, campos de tortura auditiva, e sua audição pode tornar desagradável um momento que poderia ser inesquecível. Procuro sempre me retirar quando me deparo com aquelas pessoas tocando e cantando “Mesmo com toda a riqueza dos sheiks árabes…”. Mas tem muita gente boa, muita banda boa tocando e cantando por aí, fazendo a alegria de muita gente!

Shakespeare povoou todas as suas peças com música, e discorreu sobre sua importância, força e poder, e diz num determinado momento, pela boca do rei Ricardo II “Como é desagradável a doce música quando não se contam bem os tempos e não se observa o compasso”! O mesmo acontece com a música da vida humana”. É isso, a vida, assim como a música, requerem compasso!

Como a sentença de Shakespeare se aplica aos astros e divas da Música que, por carregarem uma espécie de Fogo de Prometeu, e brilharem tanto quantos as estrelas, embebidos de luz terminam suas vidas de forma trágica como personagens da tragédia grega! Mas isso é assunto para um outro ensaio. Por agora, fiquemos com essas palavras que, se não chegam a nós com o mesmo impacto de uma bela canção, nos servem para falar de seu sublime caráter! Portanto, cantemos, toquemos e dancemos! Muito, muito, muito mesmo!