João de Deus e os Gurus Pervertidos

As denúncias de assédio sexual e estupro contra João Teixeira de Faria, o famoso médium João de Deus ou “John of God”, como o chamam seus fãs do exterior, deu-me a oportunidade de escrever sobre um tema que há muito tempo martelava minha cabeça: o dos “gurus espirituais”,  “os iluminados”, “ curandeiros”, esses impostores, envolvidos em estelionato, roubo, crimes sexuais, assassinatos, ou seja, pilantras, criminosos escondidos atrás da máscara de “espíritos elevados”, que “se comunicam com os céus”, e que, por isso, “têm o dom da cura”. A maioria deles, como veremos aqui, usam a Índia e o Tibet e a religião budista como amparo. Usam um escudo visual: ­ normalmente raspam as cabeça e usam longas barbas, e usam vestes, nunca calças e camisas. No caso dos gurus cristãos, a roupa branca e uma cara de piedoso, mãos postas e olhos fechados são o modelinho básico.

Podemos começar citando Maharishi, o famoso guru espiritual dos Beatles. George Harrison foi quem levou a banda para a Índia, cidade de Rishikeshi, para meditar com esse “sábio indiano”. Junto com eles foram a atriz Mia Farrow e sua irmã. Muito embora a visita a Índia tenha tido um forte impacto sobre a banda, os Beatles interromperam a visita e acusaram Maharishi de tentar abusar sexualmente de Mia e sua irmã. O episódio gerou a música “Sex Sadie”, cujo versos dizem o seguinte:“Sexie Sadie o que você fez? Você fez todo mundo de bobo! Você quebrou todas as regras”!

Talvez o mais famoso desses pilantras seja Bhagwan Rajneesh, depois chamado de Osho. Esse sujeito gozou e ainda goza de um prestígio gigantesco, quase lendário, principalmente durante os anos 80 –– quem não lembra dos Rajneeshs?–, como guru espiritual de muitos milhares de pessoas ao redor do mundo. Osho, após ser expulso da Índia, montou uma comunidade nos EUA, no estado do Oregon, chamado de Wild Wild Ranch! O que prometia ser uma cidade espiritual, de meditação – gente de todo o mundo passou a morar lá –, transformou-se num pesadelo. Osho era proprietário de mais de 90 automóveis Rolls Royce, jóias e relógios caríssimos, jatinhos, todos doados pelos seus discípulos, muitos deles atores de Hollywood. Mas isso não era nada, Osho cercou-se de desajustados, pregando o amor livre, o sexo sem peias com orgias sexuais regadas a muita droga lícitas e ilícitas. Cercou-se de fanáticos seguidores fortemente armados. Era a cura espiritual. Entrou em choque com a comunidade americana local, e relatos de envenenamento, tentativa de assassinatos deram a tônica. Rajneesh foi preso e expulso do EUA, e continuou com suas picaretagens na Índia, onde montou um “Spa espiritual” para milionários entediados, até morrer em 1990, provavelmente, em consequência da AIDS. Vejam a série Wild Wild Ranch no Netflix!

Outro caso recente é o de Sri Prem Baba (em sânscrito Sri é Senhor, Prem Amor Divino e Baba Pai espiritual). Prem Baba é, na verdade, um pilantra nascido em São Paulo chamado Janderson Oliveira Fernandes. Esse sujeito foi para a Índia, e de lá voltou se dizendo discípulo de um sábio Hindu e com o dom da cura através da meditação. Ostentando o surrado visual “careca de barbas longas e saiote indiano”,  ele enganou uma manada de otários tomando-lhes bastante dinheiro. A maioria desses incautos eram atores e atrizes,  políticos poderosos como Aécio Neves, Eduardo Paes, Marconi Perillo – ou seja, gente igual a ele. A bela, e sempre equivocada, ela pensa que é escritora, Bruna Lombardi é uma de suas seguidoras. Prem Baba abusou sexualmente de três mulheres, dizendo ser essa forma de libertá-las de seus problemas sexuais. Prem Baba, admitiu seus crimes, e não foi punido. Desmascarado, está milionário, dono de varias empresas. Todas elas construídas com dinheiro tomado de pessoas ingênuas.

E porque não falar do Reverendo Moon, um ladrão coreano, fundador de uma tal Igreja da Unificação, expulso dos EUA, e que veio para o Brasil, comprou um pedaço do Mato Grosso e do Paraguai, e lá montou a sede da igreja que faria a unificação espiritual dos povos. Encheu o Mato Grosso e o Paraguai de coreanos incautos. Expulso do Brasil, morreu “podre de rico” dono de um vasto conglomerado empresarial. Tudo dinheiro roubado de incautos. Quem não lembra de Jim Jones – virou o personagem Tim Tones, de Chico Anísio –, outro líder espiritual americano, que levou mais de 900 pessoas ao suicídio coletivo afirmando, em nome de Jesus, que o fim do mundo tinha chegado!

E temos agora o João de Deus, o curandeiro espiritual de Abadiânia, aqui do lado de Brasília, endeusado no mundo todo, sucessor de Chico Xavier, desmascarado como um pervertido sexual que abusou sexualmente de centenas de mulheres, inclusive de crianças de onze anos e, pasmem, estuprou a própria filha dezenas de vezes! João “de Deus”, ou João do Cão, é melhor esse título de rima rica, é pai de nove filhos, de nove mulheres. Só isso já é suficiente para mostrar que se trata de um depravado. João de Deus “tratou” de pessoas como Bill Clinton, Oprah Winfrey, o jogador Ronaldo e dezenas de outros poderosos. As provas contra ele são irrefutáveis! Os depoimentos das mulheres violentadas são devastadores. Denunciado, João está sumido. Seu destino é a cadeia. É uma questão de dias. Adivinhem quem saiu em defesa dele? Renan Calheiros! Isso mesmo, o jagunço das Alagoas, uma das figuras mais asquerosas da República, que responde a catorze processos no STF. Eles se merecem!

Poderíamos citar muitos e muitos outros casos de picaretagem espiritual, principalmente envolvendo muitas igrejas evangélicas em que “pastores” “libertam” mulheres do demônio, tendo relações sexuais com elas; dos padres pedófilos que abundam mundo afora, em especial nos EUA; da violação de freiras… Mas isso faz parte das fraquezas humanas. Estamos falando de um único indivíduo apontado como líder espiritual, que exerce influência sobre um grande número de pessoas, um ‘iluminado’, um “homem de Deus”.

Não conheço o Código Penal, mas acredito que o crime desses sujeitos pervertidos, seguidos de fanáticos, deveria ter dupla punição: trata-se literalmente de abuso da fé alheia. De pessoas já profundamente machucadas e, em grande maioria, vítimas de abuso sexual na infância, de estupro, e que, ao procurar ajuda espiritual, caem na mão desses depravados. O abuso sexual é absolutamente destruidor, e causa uma dor irreparável, insuportável e leva à autodestruição. Sabemos também que muitas dessas pessoas, de tão desesperadas, continuam nesse círculo vicioso, vivendo em redor desses bandidos, presos a eles numa espécie de Síndrome de Estocolmo. O tal Osho, já falecido e  Prem Baba, continuam com seus centros de picaretagem funcionando. Uma outra coisa une todos esses sabichões: o amor ao dinheiro, ao luxo. Todos eles são hábeis empresários e vivem como nababos!

Pergunto se alguém lembra de Lobsang Rampa, o monge budista do Tibet, de 250 anos de idade, da cidade sagrada de Lhasa, autor dos livros: A Terceira Visão, Entre os Monges do Tibet, O Médico de Lhasa e muitos outros títulos, todos eles Best Selers nos anos 70 e 80. Lobsang Rampa teve e ainda tem uma legião de seguidores pelo mundo. Pois muito bem, muitos anos depois Lobsang Rampa, disse que seu verdadeiro nome era Ciryl Hoskins e que nascera na Grâ-Bretanha, tinha pouco mais de 50 anos, e escrevera todos aqueles livros apenas para ganhar dinheiro. Que seus livros não passavam de obras de ficção! E que nunca fora ao Tibet. Essa é a verdade!  Ciryl, que não cometeu nenhum crime, continua tendo seguidores, mesmo ele negando a existência do ser Lobsang Rampa. Vejam até aonde o fanatismo religioso é capaz de chegar!

Shakespeare utilizou fantasmas, espíritos e bruxas em suas peças: Hamlet, Macbeth, A Tempestade porque faziam parte da crença da época, como recurso teatral e porque ele sabia do enorme poder que essas forças exerciam sobre o ser humano. ´É no Mercador de Veneza que ele condena esses pervertidos, pela boca de Antônio:  “Notai isto, Bassânio, o diabo pode citar as escrituras para seus propósitos! Uma alma má que apela para testemunhas sagradas é como um perverso de risonho semblante, uma bela maçã podre por dentro! Oh, como a falsidade pode revestir-se de um belo exterior”. E conclui em Hamlet “Porque é possível sorrir, sorrir e ser vilão”.