Cem anos do Fim da Primeira Guerra Mundial

(Os Apóstolos da Paz)

Em agosto de 1898, o Czar da Rússia, Nicolau II, surpreendeu o mundo ao propor uma conferência de desarmamento entre as grandes potências. Imediatamente um exército de pacifistas apresentou-se e começou a trabalhar pela paz. Os guerreiros mais aguerridos foram a baronesa Von Suttner e o respeitado jornalista William T. Stead.
A Europa vivia a chamada Belle Époque, um período de paz e prosperidade, que começou em 1871 e que duraria até 1914.

Havia uma crença na virada do século XIX de que a humanidade chegara ao ápice de suas realizações e que tudo de bom e útil já fora inventado. Afinal, tínhamos fonógrafo, automóvel, telefone, máquina de costura e de escrever, bicicleta e outros confortos modernos. No entanto, uma ameaça ocorria, a corrida armamentista estava desenfreada e as indústrias de armamentos fabricavam armas cada vez mais mortíferas. Era, portanto, necessário dar um fim a essa loucura da guerra. Muito embora, quase todo mundo estivesse convencido de que “a era das guerras tinha passado”.
William T. Stead era um vulcão, tal sua competência, capacidade de trabalho, vasto conhecimento, relações pessoais com poderosos, sendo respeitado em toda a Europa. Meteu-se em todas as grandes causas de sua época. Quando soube da oferta do Czar Nicolau da Rússia, foi a sua procura, bem como de outros chefes de estado, junto com a baronesa Von Suttner, com o objetivo de promover uma conferência de paz. Em seu encontro com Nicolau, “o príncipe da paz”, Stead achou-o encantador, lúcido, determinado com larga compreensão dos problemas mundiais. Daí iniciou a sua Cruzada Internacional da Paz.
Outro que se juntou ao grupo, doando, inclusive, o majestoso prédio para a conferência, foi o bilionário americano Andrew Carnegie, que logo tratou de procurar o “senhor da guerra” o Kaiser da Alemanha, Guilherme II, enquanto a baronesa se encontrava com o presidente dos EUA, Theodore Roosevelt, “o homem do porrete”. Carnegie queria transformar o Kaiser em Pacificador. E achou-o maravilhoso, sincero “alguém em que se pode acreditar” e saiu de lá convicto que o transformara em “apóstolo da paz”.
A primeira Conferência da Paz ocorreu em 1899, e a segunda em 1907, em Haia — foi onde nosso Ruy Barbosa transformou-se em Águia de Haia, com o apoio de Stead — a pequena cidade da neutra Holanda. A terceira seria em 1915. O otimismo era grande. Em 1905, o jovem escritor austríaco Stefan Zweig declarou: “falta muito pouco para que os últimos vestígios do mal e da violência sejam definitivamente extintos”.

Encontros de pacifistas se multiplicaram pelo mundo, e nunca se falou tanto de paz.
Na Inglaterra, um grupo de artistas e intelectuais pacifistas, denominados Os Apóstolos, liderados pelos escritores Lytton Strachey e E. M. Foster – Keynes e Bertrand Russel pularam fora cedo – dedicaram-se durante as três primeiras décadas do século XX a boicotar e desmoralizar o alistamento militar e o governo britânico, declarando que: “entre trair meu amigo e o país, espero ter a coragem de trair o meu país”.
O resto da história é tragédia. A consequência de tudo isso é que tivemos a maior carnificina de todos os tempos, culminado em duas guerras mundiais que ceifaram mais de 80 milhões de vidas e produziram sofrimentos e prejuízos irreparáveis à humanidade. A luta dos pacifistas, embora dessem frutos 40 anos depois, contribuiu enormemente para as desgraças que se seguiram. Sabemos hoje que o Czar, o príncipe da paz, era um autocrata preguiçoso e incompetente, que detestava o exercício de governo e propôs a conferência em função da extrema fragilidade da Rússia.

Hoje, 11 de novembro de 2018 é a data de aniversário do fim da Primeira Guerra Mundial! E a Guerra, no dizer de Shakespeare em Henrique VI, parte II, é “A filha do Inferno”.