Representai bem o papel de homem

Não há nada mais frustrante, deprimente, desolador e vergonhoso do que a inação, a indolência, a preguiça, esses poderosos combustíveis geradores de pobreza e mediocridade. Quando os cristãos puseram a Preguiça entre os Sete Pecados Capitais ao lado da Luxúria, Ira, Gula, Soberba, Inveja e Avareza, eles sabiam o que estavam fazendo. Ao convivermos, enfrentamos ambientes em que o desleixo, a indolência, a ociosidade e, principalmente, a indiferença predominam – dão o “tom da música” –, sentimo-nos pequenos, fracos, desolados, despidos e entristecidos diante da ausência do espírito que deveria impregnar todo ser humano: a vontade de criar,  trabalhar, fazer, escrever, produzir, exaltar, mover as coisas e as pessoas. Se o homem é produto do meio em que vive, e isso é certeza, então estar entre homens e mulheres indiferentes, preguiçosos e indolentes é fazer parte de um círculo em que Dante Alighieri condenaria ao inferno!

Sabemos que o brasileiro é um povo completamente desprovido de espírito comunitário e, principalmente, de espírito público, o caráter que rege a maioria dos povos que compõem as nações mais prósperas do mundo, que tiraram seus cidadãos da miséria e da pobreza e os tornaram homens prósperos e orgulhosos de sua comunidade e de suas famílias. Quando observamos o que a grande maioria dos nossos homens públicos –, seja o mais modesto vereador, passando por prefeito, governador, senador (esses são os piores), juiz, secretários de estados, presidentes de associações comunitárias, presidente da república, promotor, e muitas e muitas outras ocupações, observamos, com enorme tristeza, a falta de interesse dessas pessoas em ajudar a resolver os problemas da comunidade, instituição, estado, bairro, rua ou cidade em que vivem. Em quase todas as situações, vigora o interesse individual. Ou seja, o interesse de enriquecer, se locupletar, se apropriando dos bens e do dinheiro dos impostos que deveriam servir àquela coletividade. Creiam-me, esse é o maior problema do Brasil: a falta de espírito público, de senso de coletividade.

Quando olhamos o que anglo-saxões, coreanos, japoneses, escandinavos e agora chineses, embora tenham cometido erros colossais no passado, alcançaram em suas nações, em benefício de seu povo, tirando-os da pobreza, enriquecendo-os em todos os aspectos da vida social, nós nos envergonhamos de ser brasileiros. Repetimos e sabemos, e o resto do mundo nos relembra todos os dias: como que uma nação gigantesca, abençoada por Deus, cheia de rios, com um clima e uma terra excelente sob qualquer ponto de vista, não consegue diminuir, minorar, melhorar a vida de uma enorme parte de seus cidadãos, que vivem em um clima de terra desolada, hostil, pobre e violenta? Como que o Brasil não consegue resolver o problema da pobreza, sendo o país mais rico em recursos naturais do planeta, recursos que os japoneses, o povo mais desenvolvido do mundo, nunca teve? Como? Simples, muito simples: falta espírito comunitário ao povo brasileiro, falta espírito público aos homens públicos brasileiros!

A preguiça, a indolência, a indiferença são males contagiosos que contaminam e destroem o que está a seu redor, gerando uma espécie de peste, semelhante a peste do livro homônimo de Albert Camus. Camus se referia ao doloroso período em que ele viveu, o da Segunda Guerra Mundial, em que se respirava apenas destruição. Mas estou me referindo aqui a um período de paz, esses que estamos vivendo. Estamos cercados de indolentes, de gente preguiçosa, que não entende que o trabalho é o único instrumento que conduz à felicidade, ao sucesso, não ao bem-estar individual, egoísta, de si para si, mas ao bem-estar da coletividade, da comunidade, da instituição a qual ele faz parte, e da qual é pago por essa comunidade para trabalhar e gerar riqueza para todos.

O grande Michel de Montaigne escreveu em seus Ensaios “Desempenhai bem e corretamente o papel de homem; onde não houver homens, procurai comportar-vos como um”. Vivendo nesse ambiente pérfido, é preciso seguir o conselho de Montaigne,  comportar-se como Homem, e ganhar a vida honestamente, trabalhando todos os dias. Procurando ajudar nossos semelhantes, fugindo dessas “Almas tímidas e frias” que nos rodeiam!

Pois digo e repito para todos a sentença de Shakespeare “Esses pobres tempos corruptos precisam de amparo”.

Ah, Sim! Meu consolo é a literatura!

Cem anos do Fim da Primeira Guerra Mundial

(Os Apóstolos da Paz)

Em agosto de 1898, o Czar da Rússia, Nicolau II, surpreendeu o mundo ao propor uma conferência de desarmamento entre as grandes potências. Imediatamente um exército de pacifistas apresentou-se e começou a trabalhar pela paz. Os guerreiros mais aguerridos foram a baronesa Von Suttner e o respeitado jornalista William T. Stead.
A Europa vivia a chamada Belle Époque, um período de paz e prosperidade, que começou em 1871 e que duraria até 1914.

Havia uma crença na virada do século XIX de que a humanidade chegara ao ápice de suas realizações e que tudo de bom e útil já fora inventado. Afinal, tínhamos fonógrafo, automóvel, telefone, máquina de costura e de escrever, bicicleta e outros confortos modernos. No entanto, uma ameaça ocorria, a corrida armamentista estava desenfreada e as indústrias de armamentos fabricavam armas cada vez mais mortíferas. Era, portanto, necessário dar um fim a essa loucura da guerra. Muito embora, quase todo mundo estivesse convencido de que “a era das guerras tinha passado”.
William T. Stead era um vulcão, tal sua competência, capacidade de trabalho, vasto conhecimento, relações pessoais com poderosos, sendo respeitado em toda a Europa. Meteu-se em todas as grandes causas de sua época. Quando soube da oferta do Czar Nicolau da Rússia, foi a sua procura, bem como de outros chefes de estado, junto com a baronesa Von Suttner, com o objetivo de promover uma conferência de paz. Em seu encontro com Nicolau, “o príncipe da paz”, Stead achou-o encantador, lúcido, determinado com larga compreensão dos problemas mundiais. Daí iniciou a sua Cruzada Internacional da Paz.
Outro que se juntou ao grupo, doando, inclusive, o majestoso prédio para a conferência, foi o bilionário americano Andrew Carnegie, que logo tratou de procurar o “senhor da guerra” o Kaiser da Alemanha, Guilherme II, enquanto a baronesa se encontrava com o presidente dos EUA, Theodore Roosevelt, “o homem do porrete”. Carnegie queria transformar o Kaiser em Pacificador. E achou-o maravilhoso, sincero “alguém em que se pode acreditar” e saiu de lá convicto que o transformara em “apóstolo da paz”.
A primeira Conferência da Paz ocorreu em 1899, e a segunda em 1907, em Haia — foi onde nosso Ruy Barbosa transformou-se em Águia de Haia, com o apoio de Stead — a pequena cidade da neutra Holanda. A terceira seria em 1915. O otimismo era grande. Em 1905, o jovem escritor austríaco Stefan Zweig declarou: “falta muito pouco para que os últimos vestígios do mal e da violência sejam definitivamente extintos”.

Encontros de pacifistas se multiplicaram pelo mundo, e nunca se falou tanto de paz.
Na Inglaterra, um grupo de artistas e intelectuais pacifistas, denominados Os Apóstolos, liderados pelos escritores Lytton Strachey e E. M. Foster – Keynes e Bertrand Russel pularam fora cedo – dedicaram-se durante as três primeiras décadas do século XX a boicotar e desmoralizar o alistamento militar e o governo britânico, declarando que: “entre trair meu amigo e o país, espero ter a coragem de trair o meu país”.
O resto da história é tragédia. A consequência de tudo isso é que tivemos a maior carnificina de todos os tempos, culminado em duas guerras mundiais que ceifaram mais de 80 milhões de vidas e produziram sofrimentos e prejuízos irreparáveis à humanidade. A luta dos pacifistas, embora dessem frutos 40 anos depois, contribuiu enormemente para as desgraças que se seguiram. Sabemos hoje que o Czar, o príncipe da paz, era um autocrata preguiçoso e incompetente, que detestava o exercício de governo e propôs a conferência em função da extrema fragilidade da Rússia.

Hoje, 11 de novembro de 2018 é a data de aniversário do fim da Primeira Guerra Mundial! E a Guerra, no dizer de Shakespeare em Henrique VI, parte II, é “A filha do Inferno”.