Shakespeare e a Natureza dos Homens

É Brutus quem pergunta a si mesmo acerca da personalidade do grande Júlio César, o maior de todos os romanos: “O caso está em saber até que ponto possa modificar-lhe a natureza…Para dizer a verdade, nunca soube que as paixões de César dominassem mais que sua razão”. Brutus tem conhecimento que César, Cônsul de Roma, quer tornar-se ditador do grande império! Brutus é membro do Senado, um dos homens mais cultos de Roma, de família nobre e uma espécie de filho de César. Brutus gosta de César, e tem conhecimento que uma conspiração dos senadores planeja matar o grande homem. Assim, rumina sobre o que fazer para que César continue vivo, abrindo mão de seus propósitos ditatoriais, contrariando sua natureza ambiciosa de ser imperador de Roma! Isso é possível? Será que César pode contrariar sua própria natureza?

Quantos de nós já não nos perguntamos se é possível mudar a natureza das pessoas! Contrariar a fábula do Escorpião e do Sapo? O enredo é o seguinte: “Um escorpião pede a um sapo que o leve através de um rio. O sapo tem medo de ser picado durante a viagem, mas o escorpião argumenta, que se picá-lo, ele também morrerá. O sapo concorda e começa a carregar o escorpião, mas, no meio do caminho, o escorpião ferroa o sapo, condenando ambos. O sapo pergunta por que o escorpião o picou, o escorpião responde: que esta é a sua natureza e que nada pode alterar o destino”.

Quantos de nós ao, longo da vida, já não nos deparamos com pessoas extraordinárias, irmãos, familiares, amigos, pessoas que amamos, ou figuras públicas dotadas de enorme capacidade de trabalho, brilhantes, mas que carregam consigo um germe – os gregos chamavam de destino trágico – que prejudica seu êxito, impedindo-as de chegar mais longe, de “chegar ao topo”, por questões que envolvem, quase sempre, os chamados Sete Pecados Capitais: ira, soberba, cobiça, luxúria… E que, mesmo “chegando lá”, acabam sendo destruídos. E pior, em sua desgraça, arrastam consigo família, amigos  e aliados. A soberba, a cobiça e a luxúria, quase sempre estão por trás das desgraças que os acometem.

O Júlio César. Fundador do Império romano,  de que falamos aqui é personagem da peça homônima de Shakespeare,  que foi assassinado por um grupo de senadores, entre os quais Brutus, filho de sua amante. Baseado no livro de Plutarco, Vidas Paralelas, Shakespeare romanceou os fatos de uma forma extraordinária, usurpando até mesmo a própria história com sua genialidade criativa O grande dramaturgo, aproveitou o assassinato de César para fazer uma poderosa reflexão acerca das paixões humanas!

Shakespeare sofria junto com seus personagens, vendo o enorme esforço que alguns deles faziam para “superar suas naturezas malditas”, caso de Macbeth,,cuja ambição, instigada pela sua perversa esposa, faz com que ele mergulhe numa orgia de assassinatos, para obter e garantir o trono da Escócia e, em seguida ser aniquilado. Macbeth não consegue superar sua natureza ambiciosa! Hamlet, um príncipe sábio, cheio de virtudes, mas hesitante, um homem diante de uma tarefa difícil de realizar: matar o assassino de seu pai, seu próprio tio, acaba provocando a morte de pessoas que ama, e a sua própria. Coriolano, um general nobre, guerreiro destemido, honrado e bem intencionado, não consegue refrear seu orgulho. Dotado de uma língua afiada, diz o que pensa (Alguém conhece Ciro Gomes?), é eleito cônsul de Roma, para horas depois perder o cargo, por conta de sua incontinência verbal. Em seguida, perde a própria vida. Temos ainda Othelo, um homem tomado de um ciúme doentio da esposa. Tímon de Atenas, dotado de uma generosidade extremada, achando que pode comprar o amor dos amigos. Ambos terminam destruídos. Shakespeare tem uma vasta galeria de personagens trágicos!

Continuando com seus pensamentos, Brutus dispara a seguinte sentença: “Todos nós nos levantamos contra o espírito de César e no espírito dos homens não existe sangue! Oh! Por que não podemos matar o espírito de César, sem desmembrarmos César?”. Brutus, que acaba se juntando aos conspiradores, vê que não é possível separar os homens de suas paixões. Assim, César tem que morrer!

Quando olho para os candidatos a Presidente da República, nesse momento tão sombrio porque passa o Brasil, me pergunto: O que fazer para mudar a natureza dessas pessoas? A resposta é: Nada! Somente uma doença mental ou um grave acidente é capaz de mudar suas naturezas! É isso!