As Guerras e a Copa do Mundo

Em vez de campos de batalha, agora temos campos de futebol; em vez de gladiadores, temos jogadores; em vez de empunhar armas, corremos atrás de uma bola, ou mexemos com outros artefatos: seja jogando futebol, voleibol, basquete, correndo, nadando, pedalando, boxeando, e praticando outros esportes. A morte e a violência estão presentes no dia da humanidade, mas o homem não vive mais em guerra permanente como nos séculos passados.

 

A guerra sempre foi a principal atividade humana. Matar-se uns aos outros era a regra, a lei do mais forte prevalecia e, o guerreiro mais valente era o líder do grupo. Os gregos antigos, que nos legaram quase tudo que pensamos hoje – inclusive, as Olimpíadas –, viviam em guerra permanente. E Sócrates foi um soldado dedicadíssimo. Todas as comunidades, de todas as etnias e lugares do planeta viviam guerreando e se matando. Isso prevaleceu até pouco tempo atrás, quando a Europa, o continente que controlava o mundo, foi devastada em duas guerras mundiais. Ainda temos o serviço militar obrigatório, e quase todas as nações são detentoras de forças armadas. Ainda temos guerras localizadas, mas isso parece que está passando, e as guerras de batalhas campais, aos poucos estão sendo substituídas pelas guerras de diplomacia, hackers, troca de farpas, boicotes econômicos, assassinatos seletivos e espionagem permanente.

Quando digo que campos de batalha viraram campos de futebol é porque esse esporte se tornou, assim como dezenas de outros (as Olímpiadas) o catalisador da agressividade humana, dos homens, seres que não conseguem viver sem brigar. Estou falando do futebol, porque se trata do esporte mais popular do planeta – embora não seja tão forte nos EUA, terra do basquete.

 

Os guerreiros de hoje são os jogadores de futebol e suas torcidas. De certa forma, as  nações medem sua força por intermédio de seus clubes de futebol. Muito da garra, da agressividade humana foi canalizada para esse esporte. Os estádios são as áreas onde se dão as batalhas entre 22 jogadores correndo atrás de uma bola, cercados por, 30, 80, 100 mil pessoas, que gritam por um dos clubes que jogam com uma bola na arena, além, ainda, de dezenas de milhões e até bilhões, que torcem pela televisão, rádio e Internet. O futebol é um substituto da guerra do passado. A velha Europa tem os campeonatos mais ricos e disputados do mundo. E os clubes espanhóis, alemães e ingleses, outrora nações que viviam em guerra, agora correm e brigam por uma bola. É um tremendo avanço. Quando vemos aqueles estádios cheios de pessoas torcendo por seus clubes – que têm bandeiras e hinos como as nações – nos alegramos por saber que elas não estão se matando como faziam no passado. Lembremos que o Coliseu de Roma era uma arena da morte, em que os jogadores eram os gladiadores, que morriam às centenas em uma única “partida”. Até o século XVIII às execuções de criminosos, esquartejamentos e enforcamentos, eram feitas em público, na praça principal da cidade, e eram assistidas por todos. Isso é passado!

 

Digo isso porque estamos em época de Copa do Mundo, o maior acontecimento esportivo do planeta, um evento maior que as Olimpíadas. Cada vez mais globalizada, a Copa do Mundo de Futebol, hoje em vez de ser um evento restrito à América do Sul e Europa estendeu-se à África, Ásia e Oceania. A próxima Copa será no Catar, Oriente Médio. O Brasil é o país do futebol, o maior vencedor de títulos e celeiro de craques, que, hoje, estão espalhados por todos os clubes do planeta. No Brasil, respira-se futebol, e sua Seleção Brasileira de Futebol é uma instituição nacional. Os jogadores são ídolos, tal qual eram os grandes guerreiros do passado.

 

Estamos acompanhando, na Rússia, 32 nações se digladiando, em arenas gigantes, com dezenas de milhares de torcedores gritando o nome de sua seleção de Futebol – é “A pátria de chuteiras” dizia Nélson Rodrigues –, e bilhões de outros assistindo pela TV e tabletes o desempenho dos guerreiros da bola. As pessoas choram, riem, comem as unhas pela glória de seu país. Um gol é capaz de fazer toda uma nação ir do desespero ao êxtase. Mas ali não há ninguém matando ninguém. São apenas homens gastando adrenalina, saciando sua agressividade de uma forma criativa e genial. Os combates dentro de campo não produzem mortos e feridos, apenas quedas e contusões e lances geniais que fazem a glória da humanidade, que aprendeu a guiar sua agressividade para algo belo e sublime!

O Brasil já participou de 21 guerras de futebol, venceu cinco: é quem mais venceu. Acaba de perder a Copa deste ano de 2018, algo que deixa os brasileiros devastados. Hoje, não vigora, como nas guerras, a lei do mais forte e violento, ou do que tem mais guerreiros/jogadores; mas do que têm mais talento e melhor sistema tático e se prendem a detalhes mínimos para saírem vencedores.

O futebol representa uma vitória da humanidade contra o ódio, a agressão e a guerra! Assim termino com Hamlet: “Que obra prima é o homem, como é infinito em faculdades, em forma e movimentos como é divino e maravilhoso”. Viva o futebol!