Neymar Cai Cai

Pobre e infeliz Neymar, seus esforços sobre-humanos para transformar o futebol brasileiro no melhor do mundo estão torturando-o ao ponto de sofrer ataques que quase o mataram na semana passada. Pelo menos, foi isso que disse a Placar, a revista de esportes mais importante do país, sobre aquele que foi eleito o Novo Messias pela crônica esportiva brasileira. O “menino” Neymar foi comparado a Jesus Cristo, e está sofrendo as mesmas dores que o filho de Deus sofreu na cruz.

Não satisfeitos em terem transformado Neymar no maior fenômeno de marketing da história, festejando-o muito mais do que Pelé, no passado, muito embora o rapaz não tenha feito uma única façanha internacional pelo nosso futebol, eles agora querem preservá-lo da Seleção Brasileira. Daí que ele está sendo sacrificado igual a Jesus.

Muito embora o “menino” do Santos receba 100 mil reais por dia – a quantia é exatamente essa, 100 mil reais todo dia – de salário, e viva como um rei. Seus protetores, que o transformaram num produto extremamente lucrativo, acham que a maratona de jogos que ele está enfrentando é demais para ele, e isso pode matá-lo. Estão protegendo seu investimento. Mesmo que a maratona seja a mesma que enfrentam outros craques brasileiros.

A figura mais aplaudida, alardeada, festejada e incensada em toda nossa história, por ser um ícone do futebol, está sendo usada e abusada pela poderosa rede da imprensa esportiva do Brasil. Todo esse aparato em torno de Neymar está sendo utilizado por essa turma para mascarar a péssima fase que atravessa o futebol brasileiro e sua Seleção – que  tornou-se um fantasma, que não mete mais medo em ninguém.

O futebol europeu avançou bastante, adotando uma sólida gestão empresarial, que deu frutos. Hoje, qualquer brasileiro sabe que estamos aquém do futebol jogado por eles. O título de Campeão Mundial de Clubes, do Barcelona, o placar de 4 X 0 – humilhante, em cima do Santos, num jogo em que Neymar não fez absolutamente nada, a não ser cair, e o argentino Messi deu show – foi uma facada no orgulho do futebol brasileiro.

Estamos construindo os estádios mais belos do mundo, a um custo estratosférico, para dar aos brasileiros o prazer de sediar uma Copa do Mundo – já que perdemos em 1950 – para mostrar ao mundo que o país encontrou o rumo do desenvolvimento, e que já não é mais uma nação qualquer. No entanto, aquela arte que encantou a todos, a razão de ser da Copa, está passando por um momento difícil. Por isso, a criação do Novo Messias, o “menino Neymar”. Até então eu não tinha percebido totalmente a gravidade do que os marketeiros tramaram. A capa da Placar veio mostrar o quanto a coisa é grave.

Posso garantir que não sou corintiano, palmeirense ou são paulino,  nem tenho raiva do Santos. Sou torcedor do humilde Ceará. Futebol também não é um assunto sobre o qual me sinto à vontade para escrever. No entanto, essa capa patética da Placar, que não mexe com meus princípios cristãos, querendo dar a um mero jogador de futebol um papel que ele não tem, não teve, e nunca terá, me assusta pelo grau da desonestidade com que foi produzida. Os sujeitos estão mostrando que não têm escrúpulo algum para promover esse rapaz, usando-o, com seu pleno consentimento, para mascarar a fase medíocre por que passa o futebol brasileiro. Por mais que tenhamos tantos cronistas de futebol no país, fazendo críticas o tempo todo.

Por fim, a Copa está chegando, o “menino” terá 22 anos em 2014. E Neymar poderá dizer a que veio. Até o momento ele demonstrou que é um produto para consumo interno. Para mim, ele ainda é o Neymar cai-cai.

Só mais uma coisa, quem deveria estar crucificado naquela armação de madeira da Placar, em forma de cruz, era o torcedor brasileiro. A vítima de todo esse embuste. E já que estamos em fase de ataques à religião, e citações bíblicas, declaro que Neymar é um “ídolo de pés de barro”, e seus promotores, fariseus!

 

As Guerras e a Copa do Mundo

Em vez de campos de batalha, agora temos campos de futebol; em vez de gladiadores, temos jogadores; em vez de empunhar armas, corremos atrás de uma bola, ou mexemos com outros artefatos: seja jogando futebol, voleibol, basquete, correndo, nadando, pedalando, boxeando, e praticando outros esportes. A morte e a violência estão presentes no dia da humanidade, mas o homem não vive mais em guerra permanente como nos séculos passados.

 

A guerra sempre foi a principal atividade humana. Matar-se uns aos outros era a regra, a lei do mais forte prevalecia e, o guerreiro mais valente era o líder do grupo. Os gregos antigos, que nos legaram quase tudo que pensamos hoje – inclusive, as Olimpíadas –, viviam em guerra permanente. E Sócrates foi um soldado dedicadíssimo. Todas as comunidades, de todas as etnias e lugares do planeta viviam guerreando e se matando. Isso prevaleceu até pouco tempo atrás, quando a Europa, o continente que controlava o mundo, foi devastada em duas guerras mundiais. Ainda temos o serviço militar obrigatório, e quase todas as nações são detentoras de forças armadas. Ainda temos guerras localizadas, mas isso parece que está passando, e as guerras de batalhas campais, aos poucos estão sendo substituídas pelas guerras de diplomacia, hackers, troca de farpas, boicotes econômicos, assassinatos seletivos e espionagem permanente.

Quando digo que campos de batalha viraram campos de futebol é porque esse esporte se tornou, assim como dezenas de outros (as Olímpiadas) o catalisador da agressividade humana, dos homens, seres que não conseguem viver sem brigar. Estou falando do futebol, porque se trata do esporte mais popular do planeta – embora não seja tão forte nos EUA, terra do basquete.

 

Os guerreiros de hoje são os jogadores de futebol e suas torcidas. De certa forma, as  nações medem sua força por intermédio de seus clubes de futebol. Muito da garra, da agressividade humana foi canalizada para esse esporte. Os estádios são as áreas onde se dão as batalhas entre 22 jogadores correndo atrás de uma bola, cercados por, 30, 80, 100 mil pessoas, que gritam por um dos clubes que jogam com uma bola na arena, além, ainda, de dezenas de milhões e até bilhões, que torcem pela televisão, rádio e Internet. O futebol é um substituto da guerra do passado. A velha Europa tem os campeonatos mais ricos e disputados do mundo. E os clubes espanhóis, alemães e ingleses, outrora nações que viviam em guerra, agora correm e brigam por uma bola. É um tremendo avanço. Quando vemos aqueles estádios cheios de pessoas torcendo por seus clubes – que têm bandeiras e hinos como as nações – nos alegramos por saber que elas não estão se matando como faziam no passado. Lembremos que o Coliseu de Roma era uma arena da morte, em que os jogadores eram os gladiadores, que morriam às centenas em uma única “partida”. Até o século XVIII às execuções de criminosos, esquartejamentos e enforcamentos, eram feitas em público, na praça principal da cidade, e eram assistidas por todos. Isso é passado!

 

Digo isso porque estamos em época de Copa do Mundo, o maior acontecimento esportivo do planeta, um evento maior que as Olimpíadas. Cada vez mais globalizada, a Copa do Mundo de Futebol, hoje em vez de ser um evento restrito à América do Sul e Europa estendeu-se à África, Ásia e Oceania. A próxima Copa será no Catar, Oriente Médio. O Brasil é o país do futebol, o maior vencedor de títulos e celeiro de craques, que, hoje, estão espalhados por todos os clubes do planeta. No Brasil, respira-se futebol, e sua Seleção Brasileira de Futebol é uma instituição nacional. Os jogadores são ídolos, tal qual eram os grandes guerreiros do passado.

 

Estamos acompanhando, na Rússia, 32 nações se digladiando, em arenas gigantes, com dezenas de milhares de torcedores gritando o nome de sua seleção de Futebol – é “A pátria de chuteiras” dizia Nélson Rodrigues –, e bilhões de outros assistindo pela TV e tabletes o desempenho dos guerreiros da bola. As pessoas choram, riem, comem as unhas pela glória de seu país. Um gol é capaz de fazer toda uma nação ir do desespero ao êxtase. Mas ali não há ninguém matando ninguém. São apenas homens gastando adrenalina, saciando sua agressividade de uma forma criativa e genial. Os combates dentro de campo não produzem mortos e feridos, apenas quedas e contusões e lances geniais que fazem a glória da humanidade, que aprendeu a guiar sua agressividade para algo belo e sublime!

O Brasil já participou de 21 guerras de futebol, venceu cinco: é quem mais venceu. Acaba de perder a Copa deste ano de 2018, algo que deixa os brasileiros devastados. Hoje, não vigora, como nas guerras, a lei do mais forte e violento, ou do que tem mais guerreiros/jogadores; mas do que têm mais talento e melhor sistema tático e se prendem a detalhes mínimos para saírem vencedores.

O futebol representa uma vitória da humanidade contra o ódio, a agressão e a guerra! Assim termino com Hamlet: “Que obra prima é o homem, como é infinito em faculdades, em forma e movimentos como é divino e maravilhoso”. Viva o futebol!