Brasileiros e Troianos

 

“Que há de espantoso? Existe, num governo vigilante, uma providência que conhece quase até o último grão de todo o ouro de plutão, que encontra o fundo de golfos incomensuráveis, que toma lugar ao lado do pensamento, e, quase como os deuses, desvela a ideia em seus mudos berços. Há na alma de um Estado uma força misteriosa de que a História jamais ousou ocupar-se e cuja operação sobre-humana é inexprimível pela palavra ou pela pena. Todo intercâmbio que tiveste com Tróia é para nós perfeitamente conhecido…”.

A sentença acima foi escrita em 1612 e está na peça Tróilo e Créssida, uma das ultimas tragédias escritas por Shakespeare (foi montada no Brasil por Jô Soares no ano passado). Estou utilizando-a aqui e agora porque acho que ela tem tudo a ver com o caos, a catástrofe que acabamos de assistir, de sofrer, no país. Se no início do século XVII, há quatrocentos anos, portanto, a Inglaterra já tinha um serviço de espionagem capaz de informar as tramas e golpes em curso na nação, como que o Brasil em pleno século XXI, com toda a tecnologia e pessoal disponível é, ou foi, incapaz de evitar a paralisação do país por um período de dez dias? Como?

Uma cambada de imbecis – a expressão é coloquial, vulgar, mas é perfeita – foram pra rua e pras redes para pedir intervenção militar, uma ditadura, a coisa mais fora de moda e estúpida possível, uma tragédia pertencente ao passado. Algo que nem os militares querem. As forças armadas têm seu papel constitucional, sabem da dificuldade que é gerir uma nação; sabem que a classe politica apodreceu; que a corrupção tomou conta do país; que alguns membros do Supremo Tribunal Federal, entre eles Gilmar Mendes e Marco Aurélio, trabalham diariamente para desgraçar o país; mas sabem também que, apesar disso, eleições diretas, a democracia, é a melhor forma de escolher, de conduzir os destinos da nação.

Ditadura não é solução para nada, pelo contrário, é uma desgraça com data para terminar. Sabemos que a esfera pública está infestada de bandidos, que merecem realmente ser fuzilados, tal o nível de depravação a que chegaram. Que o Senado, em sua maioria, é composto por uma ralé, o que há de mais corrupto no país, são ladrões declarados que riem do sofrimento do povo e da agonia da nação. Esse bando de depravados de cabeça branca, que deveriam ser o esteio de decência do país são exatamente o contrário: um bando de ladrões descarados! O Senado no Brasil é o contrário do que deveria ser, de um corpo de homens sábios e veneráveis, fez-se o oposto: lá, quanto mais se envelhece, mais se envilece. Mais deprava! Não vou falar da Câmara dos Deputados – basta ver que todos os seus ex-presidentes estão presos – a Câmara não merece comentários! A renovação tem que vir nestas eleições.

Há quem diga que sua situação é tão desesperadora, que Michel Temer e sua turma deixaram isso tudo acontecer para que o país se tornasse uma nação sem rumo. Assim, eles se livrariam da cadeia que os espera de portas abertas em janeiro de 2019. Não acho que Temer seja tão ingênuo ao ponto de acreditar nisso! O Brasil não sairá dos trilhos, está desgovernado, mas encontrará sua rota. Infelizmente, vamos ter que suportar esse sujeito até o final de 2018. Serão sete meses de agonia! Mas “É preciso suportar o insuportável”, parodiando o Imperador japonês Hiroíto, durante a Segunda Guerra Mundial, pelo bem do país!

Temos de estar conscientes de que as quadrilhas que tomaram conta do país querem transformar o Brasil numa espécie de Tróia – digo isso para fazer um paralelo com a cidade grega que foi destruída por seus pares, objeto da peça de Shakespeare. Crise em grego é claridade, espero que essa crise brutal, uma das maiores em que o país já viveu, seja o prenúncio de mudanças, de vermos claro. Nós não aguentamos mais o Brasil!

A greve dos caminhoneiros foi um movimento dos donos de transportadoras, da extrema direita e de um bando de marginais que, sabedores do descontentamento geral, com essa política louca e confusa do preço dos combustíveis, que aumenta, varia, todos os dias. A eles, se juntou uma parte do país. Na verdade, tudo isso tem a ver com a corrupção, a doença do dia a dia do país! Até quando suportaremos isso?