Bruce Lee, a China e o Brasil

Nesses tempos sombrios, em que o Brasil é governado por um bando de sem-vergonhas, por organizações criminosas entranhadas nos três poderes da República, em que a safadeza e a corrupção são imperativos, tudo que escrevermos e dissermos sobre o tema aparenta fraqueza – pois só o povo nas ruas pode calar esses canalhas tratados por excelência –, resolvi escrever sobre outra coisa, sobre alguém, aparentemente, bem distante de tudo isso: vou falar de Bruce Lee. Bruce Lee, isso mesmo! Por que Bruce Lee? Que diabos tem a ver um ator, lutador de kung Fu, que morreu quase meio século atrás, com as mazelas do Brasil, um país tropical sem presente e sem futuro? Por quê?

Então, eu respondo: porque, entre outras coisas, Bruce Lee faz parte da minha infância nos anos 70, encarna, em seus filmes, a luta contra a exploração e a corrupção, é o oposto de todos esses bandidos que estamos enfrentando no Brasil; ajudou a pôr a China no Mapa e porque ele absorve completamente a sentença de Hamlet: “Que obra prima é o homem! Como é nobre pela razão! Como é infinito em faculdades! Em forma e movimentos, como é expressivo e maravilhoso! Nas ações, como se parece com um anjo! Na inteligência, como se parece com um Deus! A maravilha do mundo! Protótipo dos animais”.  Destaco, mais enfaticamente, para Bruce Lee, a frase “Em forma e movimentos como é expressivo e maravilhoso”.

Talvez alguém me chame de louco, idiota por misturar Shakespeare com um lutador de artes marciais! Vou provar aqui que Bruce merece ser contemplado pelo elogio de Hamlet! Só mais uma observação: quem disser que o que está acontecendo no Brasil faz parte de uma onda que afeta o mundo todo, está dizendo besteira. Trump, o gorducho coreano, estado islâmico e alguns nazistas na Europa, não têm nada a ver com a esculhambação brasileira! A depravação brasileira foi construída por nós mesmos! É coisa nossa!

Pouquíssimos seres humanos chegaram a uma perfeição física, mental e espiritual “mens sana in corpore sano” como o garoto chinês, nascido nos Estados Unidos e criado em Hong Kong, do que Bruce Lee – Lee Jun-fan, em chinês. Nascido em 1940, mesmo ano de John Lennon, na década que daria à humanidade praticamente todos os ícones culturais que iriam moldar o século XX a partir de então, Bruce foi meio azarado por ter nascido chinês! Explico. A China era um gigante obscuro, uma nação de quase cinco mil anos, que intercalava períodos de triunfo e tragédia. Já uma nação dividida há centenas de anos, a primeira metade do século fora imensamente trágica, quando os chineses foram aterrorizados pelos japoneses. Muitos migraram. Os que chegaram à América, os EUA. “a terra dos sonhos”, eram considerados racialmente inferiores, e “tratados como cachorro”, talvez pior. Bruce sofreu isso na pele, na Califórnia, o estado onde morou na juventude.

Garoto brigão, consciente de seu talento, lutava contra o preconceito, nunca aceitou que o tratassem de forma humilhante. E foi cavando sua ascensão, mediante a prática do Kung Fu, uma arte marcial chinesa, milenar, que aprendera em Hong Kong. Enquanto treinava, estudou filosofia na Universidade de Washington, leu muito psicologia, teatro e escreveu sobre o aprimoramento do corpo e da mente. Logo ele estava dando aulas de Kung Fu para as estrelas de Hollywood – Steve McQueen, James Coburn…

Bruce exercitava incansavelmente corpo e mente diariamente, chegando ao ponto de fazer flexões apenas com o polegar, e mesmo a quebrar uma tábua grossa com um único soco a 10 cm de distância. Seus passos, seus saltos, sua dança (fora dançarino de Cha, Cha Cha), sua resistência, sua força, sua habilidade e, principalmente, sua velocidade, logo deixaram claro para todos que ele não era um ser humano comum, mas uma espécie de super-homem. Bruce casou com uma americana, teve um casal de filhos, sendo um marido e pai dedicado e amoroso.

Em seguida, estava fazendo filmes em Hong Kong – seus pais eram atores de teatro, e ele fora ator mirim. Seus dois filmes estouraram em Hong Kong, ele fez a série Besouro Verde, para a TV americana, todos um enorme sucesso. Mas perdera o papel na série televisiva Kung Fu, para um louro americano, David Carradine, tudo por puro preconceito. Mas o preconceito não venceu, o sucesso veio. Criando um novo estilo de filme, “os filmes de Kung Fu”, em que ele era roteirista, ator e diretor, filmes simplórios, mas que iriam encantar toda uma geração, e encher o ocidente de academias de artes marciais, e transformá-lo num ícone mundial, um mito, um ídolo para crianças, jovens e quarentões. Hollywood dobrou-se ao seu talento, e Bruce Lee fez seu primeiro filme hollywoodiano! Faltando uma semana para a estreia, Bruce morreu, aos 32 anos, de uma dor de cabeça, em consequência de um analgésico. Na autópsia, foi constatado que seu corpo não tinha um grama de gordura. Era só músculos! Morreu o homem, nasceu a lenda!

Assim o furacão chinês varreu o mundo. Seu filme Operação Dragão arrecadou mais de cem vezes o seu custo. Seus vídeos se espalharam e o mundo todo pode ver suas performances: seu corpo perfeito, beleza física, seus saltos, seus voos, sua elegância de bailarino, estilo, força física, agilidade e uma velocidade que as câmeras da época não conseguiam registrar. Até hoje se usa câmara lenta para ver os movimentos de Bruce Lee. Quando ele usava o Nunchaku (dois bastões conectados por cordão ou corrente), parecia que eles faziam parte de seu corpo, tal a precisão e velocidade dos movimentos. As peças ficavam quase invisíveis. Nem Nijinski, Isadora Duncan, Nureyev, Fred Astaire, Cassius Clay e Michael Jackson chegaram à beleza física e a elegância de “forma e movimentos” de Bruce Lee. A quantidade de imitadores que surgiram após sua morte é enorme! Mas nenhum chegou perto de seu brilho e caráter únicos!

Três anos após a morte de Bruce, morria também Mao Tse Tung, o líder brutal que unificara a China,  e nascia a nova China, de Deng Xiaoping, que iria crescer num ritmo vertiginoso, tornando-se a nação mais rica do planeta, deslocando, até certo ponto, o centro do mundo para o oriente. Japão, China, Coréia e outros tigres asiáticos provaram ao mundo branco que os amarelos não são inferiores.

Bom, vamos para o Brasil! E o Brasil? O país do futuro? Durante parte desse tempo, de 1980 para cá, o Brasil só patinou, continuou sendo uma promessa, perdemos a corrida, e continuamos sendo “O país do Futuro”, um futuro que nunca chega. Atolamo-nos na podridão da inércia e da corrupção.

Por isso que trouxe Bruce Lee de volta para dizer que ele foi o chinês que mostrou que seu país e seu povo mereciam respeito e que podiam integrar o primeiro time das nações. Coisa que o Brasil não consegue, apesar de ter as condições materiais, geográficas para fazê-lo, até de sobra. Escravos de uma elite cruel, covarde e desumana continuamos patinando para trás. Patinando, escorregando e caindo o tempo todo. Não temos, nem de longe, um símbolo, uma bandeira, um Bruce Lee, que nos diga que podemos chegar lá!

É isso que eu quero! Que apareça um Bruce Lee!