Huxley e Shakespeare – Admirável Mundo Novo

A belíssima sentença Admirável Mundo Novo que dá título ao livro de Aldous Huxley, e que, quase todo mundo pensa que é de sua autoria, na verdade, pertence a Shakespeare. Não que Huxley tenha tentado se apropriar dela, longe disso, ele a pôs na primeira página de seu famoso livro como uma citação shakespeariana. Mas, como o livro já passou dos oitenta anos, e goza de enorme prestígio, sendo um clássico, a verdade sobre a autoria da frase já se perdeu.

Essa belas palavras são ditas pela jovem Miranda, na peça A Tempestade, uma das últimas de Shakespeare. Miranda morava isolada numa ilha com o pai, duque de Milão, que fora banido pelo irmão, quando Miranda tinha apenas um ano de idade. Ao completar catorze anos, o pai, dotado de poderes mágicos, capaz de alterar o tempo e mexer com a natureza, traz os milaneses para a ilha. É lá que Miranda, vendo homens pela primeira vez, exclama: “Oh! Maravilha! Quantas criaturas adoráveis estão aqui. Como é bela a humanidade! Oh, Admirável Mundo novo em que vivem tais pessoas”. Lindo, não é mesmo! Foi que foi nessa época que ocorreu a descoberta da América.

 

Três séculos separam Aldous Huxley de Shakespeare. Era inglês como ele e, como tal, um leitor do bardo. Filho de uma família de gênios, era neto do célebre cientista Thomas Huxley, defensor e amigo de Charles Darwin. O livro Admirável Mundo Novo foi publicado em 1932, tornando-se um sucesso quase imediato, sendo lido e devorado como um clássico que anteciparia muitas das questões da modernidade.  Trata-se de uma utopia, um livro pessimista quanto ao futuro da humanidade. Huxley prevê um estado totalitário controlado por uma minoria, detentora de uma ciência pervertida que transforma os seres humanos em meros robôs criados em laboratório. Ele ironiza a fé cega no processo científico e materialista. Diz, literalmente, que “No futuro haverá uma ditadura científica que transformará os homens em robôs”. Ou seja, a ciência e a tecnologia criariam um mundo de horror, frio e ditatorial, “superpopuloso que drenaria os recursos naturais do planeta”.

 

Huxley viveu no período em que imperava o fascismo em quase todo o mundo – ele morou vinte anos na Itália —, na fase das guerras mundiais que devastaram a humanidade. O período dos sanguinários ditadores Hitler, Mussolini e Stálin. Era um tempo de pouca, pouquíssima esperança. Prevalecia nessa época também, uma mania por áreas das ciências voltadas para a destruição do ser humano, em virtude de teorias raciais. Era uma espécie de doença. Foi baseado nisso que alemães, russos e japoneses aniquilaram milhões de seres humanos considerados “raças inferiores”.

 

Nem de longe quero diminuir o livro de Huxley, pois ele nos aponta uma série de perigos que vamos enfrentar com o avanço da ciência e tecnologia. Vide as bombas atômicas que vieram a seguir, e muitas outras armas de destruição em massa, sem falar nos medicamentos criminosos que foram usados em cobaias humanas. Mas eu diria que Huxley foi muito influenciado pelo clima de desesperança da época. Que embora estejamos enfrentando um momento preocupante, uma guinada autoritária, vide eleição de Trump, estamos longe do mundo assustador que Huxley previu. Mesmo em 1962, ano de sua morte – quando imperava a guerra fria — Huxley disse que a ameaça da ditadura tecnológica permanecia.

Não quero, nem é preciso colocar Shakespeare em contraposição a Huxley. O que se pode dizer é que Shakespeare continua atualíssimo mesmo após quatrocentos anos de sua morte. Tudo que ele diz sobre o ser humano é atual, premonitório, isso é unanimidade entre todos que o leem. É dito que nós não lemos Shakespeare, ele é que nos lê. Tenho certeza que Shakespeare não compartilharia da opinião que Huxley tem do futuro da humanidade, que ele tanto amava. Foi por isso que ele colocou o ser humano como centro de sua obra.

A provocação que faço aqui, dentro de uma Feira onde se fala de inteligência artificial, robótica – os robôs de Huxley? — tem como objetivo levar as pessoas, principalmente os jovens cientistas, a refletir sobre as preocupações de Aldous Huxley. A pergunta é:  será que a tecnologia é controlada por uma minoria autoritária que está transformando os homens em meros robôs? Afinal uma de suas teses é inegável: A superpopulação está drenando os recursos naturais do planeta terra. E aí?