Reflexões Shakespearianas sobre o Brasil

O personagem de Shakespeare adequado para falar do Brasil atual é Tersites, o sarcástico e implacável praguejador, de Tróilo e Créssida, a maior peça política do bardo. Estamos vivendo um momento tão louco e doentio, tão cruel, tão sombrio, que estão faltando, na verdade, sobrando, palavras para analisarmos o suicídio da classe política brasileira e, porque não dizer, da maioria das instituições brasileiras. O comportamento destrutivo e criminoso de nossos homens públicos é semelhante aos dos combatentes da Guerra de Tróia, cenário em que se dá a história de Shakespeare.

Daí que só mesmo praguejando – já que ninguém quer se manifestar nas ruas – para exorcizar as dores que estamos sofrendo por conta da mais absoluta falta de espírito público da classe dominante brasileira, na verdade de quase todos os poderes constituídos da República, à exceção de um pequeno número de abnegados, que fazem enormes esforços para que a justiça, condição básica para que uma sociedade prospere, prevaleça. A impunidade gerou um monstro, um Godzila, que está destruindo o país e assassinado lentamente o povo brasileiro.

Nossa história se passa na Guerra de Tróia, em que os dois lados travam uma guerra por conta do rapto de Helena por Menelau, um general grego. Orgulhosos e arrogantes, príncipes, guerreiros e generais lutam há oito anos, segundo eles, por uma causa nobre: o rapto de uma princesa que vive languidamente com seu raptor. Mas Tersites discorda de que a causa é nobre, para ele, todo caos e destruição “tem por causa um corno e uma prostituta”. Disse tudo! Para Tersites, trata-se de “Uma boa briga para atirar uma facção rival sobre a outra e para fazer sangrias até a morte”  – Aqui no Brasil as facções políticas se juntam e fazem a sangria do país. E Tersites vai desfiando sua teia de pragas sobre todos aqueles homens e mulheres irresponsáveis que transformaram a vida das duas nações num inferno. O panorama geral é de que todos perderam o juízo, e de que a arrogância, a vaidade, a mentira, a traição, a vingança, a desavença permanente são o caudal de organização da sociedade.

As personagens principais têm os pomposos e legendários nomes gregos criados por Homero: Aquiles, Ulisses, Nestor, Pátroclo, Ajax, Cressida, Heitor, Menelau… Todos eles mergulhados numa loucura coletiva de escaramuças diárias. Da mesma forma que aqui no Brasil, com a diferença que as lutas diárias aqui são para roubar dinheiro público e lograr o povo.

Diante da loucura de Tróilo e Cressida, Shakespeare criou Tersites para ser o crítico dentro da peça. E Tersites faz uma leitura mordaz, aguda e cheia de sarcasmo  – e brilhante – de cada um desses homens públicos enlouquecidos. Assim, Ajax “Tem tantos miolos, quanto ele no cotovelo” e que “Seu cavalo decoraria mais rápido um discurso do que tu aprenderias um texto sem livro” e que “Ele usa o espírito no ventre e o ventre na cabeça”. O “velho e respeitável” Nestor “Cujo espírito já estava mofado antes que nossos avós tivessem unha nos dedos dos pés”. Parece que Shakespeare está falando de Michel Temer. Michel cheira a mofo, é um homem  mofado. Diz de Nestor, que: “Se quisesse sair, existiria Inteligência nessa cabeça? Pátroclo é “O retrato do que parece ser, ídolo de adoradores idiotas” – Como temos adoradores imbecis no Brasil!   E continua: “Ah, como pobre mundo está empestado de semelhantes moscas, esses rebotalhos da natureza”. Agamenon “Tem tanto cérebro quanto cera nos ouvidos”. Diomedes “É um patife de coração falso, um ordinário totalmente desleal” e que “O sol tirará luz da lua, quando Diomedes mantiver a palavra”. E conclui que “Por toda parte reina a luxúria! Só os pervertidos mandam”. “Por outro lado a política desses patifes que se gabam da própria habilidade, não deu resultados que valham uma amora silvestre”. “Reabilitaram a barbárie e a política tomba em descrédito”.

Vocês querem um melhor retrato do Brasil do que esse? “Olhai nossos homens públicos”! Não se trata de uma leitura totalmente atemporal do Bardo de Stratford?

Pegue a camarilha cínica que está destruindo o Brasil, acrescente dezenas, talvez centenas de bilhões de dólares roubados por eles, e temos um cenário shakespeariano da Guerra de Tróia no Brasil. Tersites termina dizendo que “Os verá enforcados, como patetas, antes que venha a por os pés debaixo de suas tendas”.

É o que eu e 95% dos brasileiros desejam! E termino dizendo: “Que vão para o inferno por um caminho semeado de prímulas”.