O Juiz e o vendedor de balinhas

O Juiz e o vendedor de balinhas

Eu tinha acabado de ler, no site do Estadão, a notícia de que um juiz lotado num buraco do interior do Brasil tinha recebido um contracheque de 503 mil reais, quando um garoto passou correndo pendurando sacos com balinhas “por dois reais” nos retrovisores dos automóveis – eu estava parado no semáforo –, e uma senhora de uns 60 anos de idade me oferecia “cinco panos de chão alvejados) por dez reais. Era uma hora da tarde, sol escaldante, umidade baixíssima, um dia seco, daqueles que os brasilienses botam sangue pelo nariz. Confesso que lágrimas caíram dos meus olhos. Juro!

Quando vi aquele sujeito, aquele juiz, uma espécie de assassino, dizer para a imprensa que “Não tô nem aí” para o que a sociedade pensa disso, e de que tem mais 750 mil reais para receber de “diferença” e, de que boa parte de seus colegas de tribunal receberam cada um deles mais de 400 mil reais, eu estremeci. Juro que dá vontade pegar em armas. Deus que me perdoe. Mas é o que deve pensar qualquer brasileiro que tenha um pouco de senso de justiça, de vergonha na cara e capacidade de se indignar… Que país injusto é esse! Não é um idiota que está escrevendo aqui! Tenha profunda consciência do que é Direito, Justiça, Democracia… Mas o que eu acabei de presenciar no semáforo e na Internet é uma mistura de dor, sofrimento, revolta, piedade, canalhice, corrupção, imoralidade, roubo, assassinato…

Numa crise brutal como a que estamos atravessando, o poder judiciário, que presta um serviço enorme à sociedade, lotado de homens probos, trabalhadores, íntegros, dedicados, se atribuírem salários absolutamente imorais, dez vezes, vinte vezes o salário de um juiz do Supremo Tribunal Federal… É inaceitável. O caso acontece em todo país. A situação é pior nos estados mais pobres e nos rincões em que alguns juízes se acham deuses. Estou falando do poder judiciário, mas esse abuso, essa imoralidade, essa perversão está em todos os poderes dessa República de bananas podres chamada Brasil. Falta vergonha na cara! Bando de canalhas!

O gênio William Shakespeare, patrono do site em que se encontra esse artigo, a mente mais criativa da história da humanidade, nunca foi exatamente o que podemos chamar de um indignado. Ele era tão grande, que ser indignado era pouco pra ele. É possível que meus amigos shakespearianos me critiquem por eu ter um Site Shakespeare Indignado. Shakespeare amava tanto o ser humano e era tão obcecado por justiça, que ele sempre puniu exemplarmente seus personagens perversos. Chamo minha Página de Shakespeare Indignado, em vez de Shakespeare Apaixonado, porque é impossível não ser Indignado no Brasil, um país profundamente injusto. Não ser indignado no Brasil é ser um covarde. Quase um canalha. É dever dos homens de bem se indignarem com essa sociedade perversa.

Aquele garoto e aquela senhora que caçam trocados – o que não dá sequer para comer –sob um sol causticante, massacrante, são vítimas desse juiz dos 500 mil, que é pago para oferecer-lhes justiça.  No momento em que ele embolsa 520 salários mínimos em um único mês, e eles apenas meio salário, trabalhando como animais, ele se torna um assassino pior dos que os trombadinhas de rua. Altos salários são para grandes executivos, empreendedores, grandes empresários, artistas, pessoas que produzem e não para servidores do Estado, cujos salários são pagos com o sangue e o suor desses pobres coitados que são assassinados todos os dias pelo Estado, que deveria defendê-los!

Enquanto eu tiver um teclado e um computador para escrever, eu serei um indignado, um revoltado com a profunda injustiça social que acontece no Brasil. Serei um defensor das vítimas desse bando de perversos travestidos de autoridades públicas que visam apenas seus interesses e bem-estar. Não os perdoo, e vou continuar amaldiçoando-os enquanto estiver em cima do planeta Terra! Que vão para o inferno!