Sobre Canalhas

O dicionário Caldas Aulete define canalha como: “Sujeito que tem mau caráter, vil, desprezível, infame, reles, moral e socialmente desprezível”. Como podemos ver, são adjetivos devastadores! Mas, eu diria que ainda é pouco para definir o caráter dos canalhas brasileiros. “Olhai a vossa volta”! Vejam o que eles estão fazendo com o Brasil! Pergunto: será que os canalhas brasileiros podem ser classificados com esses pobres adjetivos? Será que esses adjetivos são suficientes? Digo que não. Um canalha é bem mais que isso, é mentiroso, safado, sórdido, farsante, depravado, pervertido, cara de pau, além de ladrão, é claro. E canalha é a única palavra capaz de abarcar o caráter desses depravados. Eu gosto da palavra depravado, para complementar o adjetivo canalha. Todo canalha é depravado. E estamos cercados deles.

Vai ser preciso visitar meu mestre William Shakespeare para penetrar na alma desses pervertidos que tomaram conta do Brasil. Antes de Shakespeare, é preciso citar Samuel Johnson, carinhosamente conhecido como Dr. Johnson, o maior dos ensaístas em língua inglesa e eminente Shakespeariano. É dele a mais célebre sentença sobre Canalhas. Diz ele “O nacionalismo é o último refúgio dos canalhas”. Essa sentença é repetida a exaustão, e no mundo todo. O Dr. Johnson estava se referindo aos políticos do século XVIII, que se escondiam atrás do patriotismo, uma praga dos séculos XVIII e XIX, para defenderem suas nefastas bandeiras. Ou seja, para justificar seus crimes, eles diziam que estavam agindo em interesse do estado, da nação. Nós sabemos o que o nacionalismo/patriotismo gerou em seguida: guerras e mais guerras, entre elas a denominada Primeira Guerra Mundial. Uma catástrofe inimaginável.

No Brasil, os canalhas estão em todos os lugares, em especial nos três poderes da República, e em grande abundância. Eles estão exterminando nosso passado, presente e futuro, e construindo o deles por intermédio de roubo descarado – outra característica do canalha, o descaramento – de dezenas de bilhões de reais dos cofres públicos. Uma minoria, fazendo canalhices, que está destruindo a vida e os sonhos dos outros 200 e poucos milhões de brasileiros. Haja canalha! Como diz um ditado popular “É canalha saindo pelo ladrão”. De tanto que se lambuzaram.

A obra de Shakespeare tem muitos canalhas. Quase todos eles envolvidos com o poder político. Ambiciosos, carreiristas, sanguinários, usurpadores iguaizinhos aos nossos canalhas que estamos sendo obrigados a engolir. É na monumental Hamlet, que encontramos o jovem príncipe dinamarquês falando de seu tio e rei da Dinamarca, o usurpador e assassino, Cláudio, dizendo que “É possível rir, rir e ser canalha”. Cláudio é igualzinho aos canalhas que vemos todos os dias nos jornais, mentindo e dando risada.

Talvez o maior canalha da obra do bardo seja Edmundo, em Rei Lear, que se torna amante das duas filhas perversas e desnaturadas do velho rei. Eles enlouquecem Lear e o matam, para se apossar do trono da Bretanha. Fazem misérias, mas não conseguem o objetivo. Shakespeare os mata antes. Ângelo é outro canalha que governa por pouco tempo a cidade de Viena. Seu puritanismo é destruidor. É afastado e desmoralizado publicamente. Em Júlio César, temos Cássio, invejoso e ambicioso, que envenena a alma de Brutus e mata o grande César, levando Roma a guerra civil. Também não chegou lá. Teve que suicidar-se para não ser morto.

Shakespeare pune todos canalhas presentes em sua obra imortal. No quinto ato, ele põe todos eles no palco, quase sempre perante os justos, e faz com que eles paguem por seus crimes. Seja com prisão, ou morte. Exatamente o que esperamos que aconteça com os canalhas brasileiros. Quando um Presidente da República diz que um canalha, seu amigo, correndo com uma mala de dinheiro roubado do meio da rua é “um rapaz de boa índole, de muita boa índole”, vemos que esse artigo não é exagerado. É isso!