Meu Adeus a Belchior

Se tivesse que comparar Belchior com algum personagem de Shakespeare, precisaria de dois deles: Tímon de Atenas e o Rei Lear. O maior dos compositores cearenses – não se trata de exagero, ele o é, – afastou-se tudo e de todos e foi morar longe da cidade grande, como fizeram Tímon, por dívidas e traído pelos amigos, e o Rei Lear, enlouquecido pela ingratidão filial.

Estive com Belchior em um fim de semana inteiro, em julho de 2003, trouxe-o, mediante contrato, a Brasília para fazer um show em comemoração ao aniversário de um amigo. Ele não me pareceu um artista que desse ouvidos a qualquer pessoa. Ficou no camarim bebendo vinho e fumando seu charuto (e exigiu boas marcas), sem conversar com quase ninguém. O que chamou atenção dele foi o fato de eu ao apresentá-lo ao público, antes dele entrar no palco, ter saudado meu grupo da Sociedade Shakespeare. A palavra Shakespeare abriu as portas para mim: ele quis me conhecer melhor. Foi ótimo, começamos uma conversa no camarim, que se alongou após o show, entrando pela madrugada e fim de semana. Conversamos sobre Shakespeare, romantismo alemão, literatura francesa, música, Dante Alighieri, vinho, charutos. Ele demonstrou uma grande erudição. O show foi uma maravilha. .

A pergunta que faço e quase todo mundo faz, é: O que fez esse artista genial e culto “cair na piração” e “entrar numa vadiagem para qual não foi feito” (para usar uma sentença de Shakespeare) e se afastar do mundo abandonando seus filhos, mãe, irmãos, amigos, toda a vida em sociedade, e “chutar a lata”, como se diz no Ceará? O que fez com que esse homem que encantou gerações com suas canções inesquecíveis, imorredouras, passasse por apertos tão grandes, com vários processos por dívidas, e ficasse escondido na fronteira do Brasil com o Uruguai?

É muito ruim especular “sem ter em mãos todas as evidências”. O que mais me chocou sobre o sumiço de Belchior foi saber que ele sequer compareceu ao funeral de sua mãe. Isso é realmente um problema. Talvez não precise de fatos para dizer um adeus caprichado ao grande poeta cearense, meu conterrâneo. Teriam sido as dívidas que desequilibraram Belchior, uma paixão desenfreada, algum alucinógeno, uma grande decepção? Não sei. E sabemos que os irmãos Ciro e Cid Gomes, do alto de seu poder, tentaram resgatá-lo, pagar suas dívidas etc. Bem como o povo de sua cidade, Sobral. Mas ninguém conseguiu nada. Teria sido a falta de shows, de sucesso, ostracismo, algo que acomete grande parte dos artistas em geral? Não foi isso. Belchior tinha público para fazer shows e ganhar dinheiro. Não era exatamente ostracismo. Não acho isso crucial para seu estranho comportamento.

Digo que Belchior tinha um páthos trágico, isso está presente nas letras de suas canções, muito embora ele também dissesse que “minha alucinação é suportar o dia-a-dia e meu delírio é a experiência com coisas reais”. Ele já tinha “sumido”, “pirado” logo após o “estouro”, o sucesso estrondoso ali no meio dos anos 80. Sumiu e reapareceu barbudo, quase irreconhecível, tanto na forma física quanto artística.

Entre os homens, o artista – o poeta – é o ser mais desprotegido. Não há nada mais difícil do que criar. Criar é sempre um parto e Belchior foi um grande criador, e um criador que não criou a vida inteira, já que pouquíssimos o conseguem. Mesmo Beethoven, tem apenas treze anos de fértil período criativo. Quantos artistas não sucumbiram ao seu gênio? A galeria é interminável, e, muitas vezes, questões relativas a dinheiro podem, sim, contribuir para essa autodestruição – não posso esquecer Tímon que amaldiçoa “a prostituta amarela”, o ouro.

Que tal Sartre, Dylan Thomas, Hemingway, Michael Jackson, Elvis Presley, Cat Stevens, Nélson Gonçalves, Maysa, Elis Regina, grandes sofredores trágicos?  A lista é interminável. O fim de Belchior não foi exatamente trágico, mas seus últimos dez anos provocaram muita dor em muita gente que o amava, e é óbvio que ele estava aprisionado por demônios que não conseguia debelar. Não há dúvida de que ele sofria muito. Ninguém quer ver seus ídolos sofrendo!

Ele se foi, suas canções ficaram! Prefiro dizer que Belchior morreu como Falstaff, um amante do vinho, como o genial cearense: “Teve um belo fim e morreu como uma criança recém-batizada, partiu exatamente entre meio-dia e uma hora, no momento exato em que a maré começa a descer; pois o vi remexer os lenções, brincar com as flores e sorrir para a ponta dos dedos…”.

O resto é silêncio!