O Avarento

Para Franz Kafka, “a avareza é a pior forma de solidão”. Shakespeare concordava com ele, tanto que, três séculos antes, criou, em O Mercador de Veneza, Shylock, um velho vingativo e avarento. A avareza de Shylock só é superada pelo seu ódio.
O texto fala da autodestrutiva jornada percorrida por Shylock para mutilar ou mesmo matar Antônio, um comerciante veneziano que lhe pedira emprestado três mil ducados. Na sua ânsia por destruir Antônio, legalmente, pois encontra inicialmente respaldo na justiça, Shylock acabará se transformando em réu e aniquilando com sua fortuna, seu poder e sua fé!
O que faz um homem riquíssimo, bilionário, dono de uma das quinhentas maiores fortunas do planeta, mandar matar pessoas, segundo a polícia, por causa de uma questão que, em termos relativos à sua fortuna, representa não mais que um real?
O que faz com que esse homem já septuagenário e “podre de rico” apareça em páginas policiais jogando pedras em repórteres feito um moleque? Que, ainda segundo a polícia, manda  tirar a vida de dois coitados que não tinham onde morar! E um dos assassinatos foi cometido na frente da filha de quatro anos da vítima? Que homem é esse? Que figura monstruosa é essa?
O avarento é um homem pobre com muito dinheiro. O prazer do avarento consiste não no uso do dinheiro, mas na sua acumulação e contemplação. É como se o dinheiro não tivesse serventia. Pelo que se sabe, Nenê Constantino – que se encontra no momento em prisão domiciliar – vive como pobre. Sabe-se que um de seus hábitos ao receber visitas é servir-lhes mingau de aveia no jantar. Para alguns esse comportamento denota modéstia e simplicidade. Mas não é modéstia, é avareza. E uma avareza que, infelizmente, encontrou seu parceiro habitual: a crueldade.É que, para o doente da avareza, qualquer um que mexa em seu dinheiro o apunhala, pois toca naquilo que para ele é seu próprio ser, seu corpo e sua alma.
Nenê Constantino mandou as leis pro inferno – a questão que provocou os assassinatos era uma mera ação de despejo –, ele pode ter feito “justiça” com as próprias mãos. Agora está prestando contas a ela! Sabemos que seu processo dificilmente terminará, mas o fato de estar preso em casa já é muito, num país onde os ricos não são condenados.
Shylock, comparado a Nenê – nenê, que ironia – Constantino é uma freira. Shylock não matou ninguém. Nenê Constantino está mesmo é para Macbeth, o perverso rei da Escócia, que se tornou um assassino por sua obsessão pelo poder. Nenê tornou-se o que é por ser obcecado por dinheiro. Ele é a prova de que a riqueza não torna o homem um ser humano melhor, mesmo que ofereça as condições para que isso ocorra.
Shylock terminou seus dias alquebrado, arrasado, isolado e sem metade da sua fortuna, fruto da sua avareza. É apenas isso que Nenê Constantino tem em comum com Shylock, a avareza. Sua avareza também o impediu de se proteger, com bons advogados, bloqueios na Imprensa, coisa que a maioria dos ricos e poderosos costuma fazer. Sua avareza o cegou e o destruiu. E ainda, cobriu toda a sua família de vergonha, ignomínia e opróbrio. O avarento encontrou o seu destino.

Meu Adeus a Belchior

Se tivesse que comparar Belchior com algum personagem de Shakespeare, precisaria de dois deles: Tímon de Atenas e o Rei Lear. O maior dos compositores cearenses – não se trata de exagero, ele o é, – afastou-se tudo e de todos e foi morar longe da cidade grande, como fizeram Tímon, por dívidas e traído pelos amigos, e o Rei Lear, enlouquecido pela ingratidão filial.

Estive com Belchior em um fim de semana inteiro, em julho de 2003, trouxe-o, mediante contrato, a Brasília para fazer um show em comemoração ao aniversário de um amigo. Ele não me pareceu um artista que desse ouvidos a qualquer pessoa. Ficou no camarim bebendo vinho e fumando seu charuto (e exigiu boas marcas), sem conversar com quase ninguém. O que chamou atenção dele foi o fato de eu ao apresentá-lo ao público, antes dele entrar no palco, ter saudado meu grupo da Sociedade Shakespeare. A palavra Shakespeare abriu as portas para mim: ele quis me conhecer melhor. Foi ótimo, começamos uma conversa no camarim, que se alongou após o show, entrando pela madrugada e fim de semana. Conversamos sobre Shakespeare, romantismo alemão, literatura francesa, música, Dante Alighieri, vinho, charutos. Ele demonstrou uma grande erudição. O show foi uma maravilha. .

A pergunta que faço e quase todo mundo faz, é: O que fez esse artista genial e culto “cair na piração” e “entrar numa vadiagem para qual não foi feito” (para usar uma sentença de Shakespeare) e se afastar do mundo abandonando seus filhos, mãe, irmãos, amigos, toda a vida em sociedade, e “chutar a lata”, como se diz no Ceará? O que fez com que esse homem que encantou gerações com suas canções inesquecíveis, imorredouras, passasse por apertos tão grandes, com vários processos por dívidas, e ficasse escondido na fronteira do Brasil com o Uruguai?

É muito ruim especular “sem ter em mãos todas as evidências”. O que mais me chocou sobre o sumiço de Belchior foi saber que ele sequer compareceu ao funeral de sua mãe. Isso é realmente um problema. Talvez não precise de fatos para dizer um adeus caprichado ao grande poeta cearense, meu conterrâneo. Teriam sido as dívidas que desequilibraram Belchior, uma paixão desenfreada, algum alucinógeno, uma grande decepção? Não sei. E sabemos que os irmãos Ciro e Cid Gomes, do alto de seu poder, tentaram resgatá-lo, pagar suas dívidas etc. Bem como o povo de sua cidade, Sobral. Mas ninguém conseguiu nada. Teria sido a falta de shows, de sucesso, ostracismo, algo que acomete grande parte dos artistas em geral? Não foi isso. Belchior tinha público para fazer shows e ganhar dinheiro. Não era exatamente ostracismo. Não acho isso crucial para seu estranho comportamento.

Digo que Belchior tinha um páthos trágico, isso está presente nas letras de suas canções, muito embora ele também dissesse que “minha alucinação é suportar o dia-a-dia e meu delírio é a experiência com coisas reais”. Ele já tinha “sumido”, “pirado” logo após o “estouro”, o sucesso estrondoso ali no meio dos anos 80. Sumiu e reapareceu barbudo, quase irreconhecível, tanto na forma física quanto artística.

Entre os homens, o artista – o poeta – é o ser mais desprotegido. Não há nada mais difícil do que criar. Criar é sempre um parto e Belchior foi um grande criador, e um criador que não criou a vida inteira, já que pouquíssimos o conseguem. Mesmo Beethoven, tem apenas treze anos de fértil período criativo. Quantos artistas não sucumbiram ao seu gênio? A galeria é interminável, e, muitas vezes, questões relativas a dinheiro podem, sim, contribuir para essa autodestruição – não posso esquecer Tímon que amaldiçoa “a prostituta amarela”, o ouro.

Que tal Sartre, Dylan Thomas, Hemingway, Michael Jackson, Elvis Presley, Cat Stevens, Nélson Gonçalves, Maysa, Elis Regina, grandes sofredores trágicos?  A lista é interminável. O fim de Belchior não foi exatamente trágico, mas seus últimos dez anos provocaram muita dor em muita gente que o amava, e é óbvio que ele estava aprisionado por demônios que não conseguia debelar. Não há dúvida de que ele sofria muito. Ninguém quer ver seus ídolos sofrendo!

Ele se foi, suas canções ficaram! Prefiro dizer que Belchior morreu como Falstaff, um amante do vinho, como o genial cearense: “Teve um belo fim e morreu como uma criança recém-batizada, partiu exatamente entre meio-dia e uma hora, no momento exato em que a maré começa a descer; pois o vi remexer os lenções, brincar com as flores e sorrir para a ponta dos dedos…”.

O resto é silêncio!