José Mayer e a Luxúria

Se José Mayer tivesse lido o soneto 129 de Shakespeare, saberia que “A luxúria é perjura, assassina, sanguinária, culpada, selvagem, extrema, rude, cruel e desleal”. “Que é uma isca lançada para enlouquecer a presa”. E que “depois de desfrutada é desprezada e esquecida”. E que, finalmente, pode “conduzir ao inferno”. Ou seja, o inferno astral que ele está vivendo hoje e do qual vai demorar um bocado para sair.

Talvez não devesse falar mais do caso José Mayer, vítima da luxúria, a “concupiscência da carne”, para usar uma expressão de Shakespeare, já que não é bom alardear ou tripudiar sobre as desgraças alheias, principalmente de alguém que era, até então um dos atores mais respeitados do país. Mas a questão “grita tão alto” que não dá para ficar calado diante do que Mayer fez. É uma questão séria demais para ficar nas sombras. Sejamos francos, José Mayer “pisou feio na bola”, cometeu um crime imperdoável, e precisa pagar por isso.

Li com muito cuidado todas as matérias veiculadas pela imprensa – séria e não sensacionalista – sobre o caso, para não ser injusto em minha análise, e, diante do que li, e do que o próprio respondeu, em um texto escrito por alguém da Globo,  está claro que José Mayer se comportou como um escroto, um canalha e merece passar pelo que está passando. A rede Globo o afastou de suas novelas, e duvido muito que ele possa voltar atuar novamente nos próximo dois ou três anos. Se é que voltará a atuar.

Acho que todo mundo conhece a história, já que o mundo das novelas impregna o imaginário de grande parte da sociedade brasileira. Pois bem, durante certo período de tempo, José Mayer assediou uma figurinista, uma moça de 28 anos – José Mayer tem 67 anos – nos estúdios da Rede Globo. Começou chamando-a de muito bonita, depois passou a “cantá-la”, em seguida, começou a usar de insinuações pornográficas, passou a mão em sua genitália e, por último, não conseguindo nada, irado, chamou-a de vaca. Passando a tratá-la mal, transformando a vida da moça em um tormento no local de trabalho. Em seguida ela foi demitida Um caso claro de assédio moral e mesmo sexual.

Muita gente banaliza a questão do assédio achando que é normal “um homem cantar uma mulher” que “usa de seus poderes de sedução para enlouquecer os homens”, e que “elas são culpadas por isso”. Quanta estupidez! Claro que a atração, paquera, o olhar fazem parte do jogo de sedução que existe entre homens e mulheres. Senão ninguém namoraria, ou casaria, já que há bastante tempo os casamentos deixaram de ser por correspondência ou conveniência etc. As pessoas se atraem. Se houver correspondência, a coisa evolui, é normal flertar, e homens e mulheres têm sua forma de se fazer notar para atrair o outro, mas se não há reciprocidade, que cada um siga seu rumo, ou pode-se até tentar novamente, mas se não deu, fim, pronto! Parta para outra, o mundo tem gente demais.

Agora, um homem de 67 anos, casado, assediar uma jovem que tem idade de ser sua neta (e de sobra) é um escândalo. É comum, principalmente no mundo artístico, as pessoas interagirem intimamente: se beijam, abraçam, se acariciam, simulam e até quase  fazem sexo durante ensaios e atuações. Atores e atrizes se separam o tempo todo por conta disso. Já, assédio é outra coisa.

Assédio moral e sexual existe e é cruel, pérfido, criminoso. É preciso combatê-lo. E, sejamos francos, as mulheres são as maiores vítimas, por motivos que nem preciso falar.

Assim, deixo uma sentença de Shakespeare que está em Otelo – uma peça que toca com profundidade nesse tema – para complementar o que disse no início desse artigo. Lembrando que estamos falando de um grande ator. E todo ator é obrigado a ler Shakespeare. Senão, não é ator! Veja só, José Mayer: “Se a balança de nossas existências não tivesse o prato da razão como contrapeso ao da sensualidade, o sangue e a baixeza de nossa natureza nos conduziriam às mais desagradáveis consequências. Mas possuímos a razão para esfriar nossas furiosas paixões, nossos impulsos carnais, nossos desejos desenfreados”.

É isso, você tinha que ter usado a razão, Zé!