A Falta que a Leitura Faz

Segundo Elias Canetti: ”Para dizer algo sobre este mundo que tenha algum valor, o escritor não pode afastá-lo de si ou evitá-lo. Tem de carregá-lo enquanto caos”. Pois o escritor tem “A vontade de responsabilizar-se por tudo aquilo que é apreensível em palavras”. Ele acha que “Num mundo onde importam a especialização e a produtividade o múltiplo e o autêntico estão embaciados”. Quanta verdade há nessas palavras! Porque o caos é injustiça, e é por justiça que lutamos.

Sempre concebi o mundo como um lugar onde a verdade devesse prevalecer. Um mundo onde eu pudesse ler meus livros e escrever meus textos, buscando a autenticidade – por mais difícil, doloroso e caro que isso seja. Fugi, e ainda fujo, da especialização técnica como o diabo da cruz, porque ela mata a liberdade e a individualidade. Quantos são aqueles que não conseguem mais escrever algo que não seja sobre sua própria especialidade, e se desesperam por saberem que perderam sua capacidade de metamorfosear-se, perceber-se e interagir com os outros homens? O escritor tem de ser um homem livre. Mais ou menos o que diz Jacques, em Como Gostais: “Minha liberdade deve ser total. Devo ser tão livre quanto o vento”.

Numa época de Facebook ficou fácil ver o quanto as pessoas não sabem escrever. Vemos o sofrimento daqueles que se perderam na jornada, em busca de “uma vida sem riscos”, que ainda acham que podem encontrar o caminho de volta, e escrever alguma coisa que valha a pena ser lida, já que, na juventude, queriam ser livres, mas foram engolidos pela “segurança”. Moro em uma cidade, Brasília, em que as pessoas acham que só existe vida para quem trabalha para o Estado.  Ou seja, só existe vida na “segurança” do serviço público. São pessoas que fazem pareceres para o estado, governos ou petições para juízes. Atividades louváveis, respeitáveis e necessárias. Mas escrever com liberdade, livre de peias, é outra coisa bem diferente.

Existe outra turma que não aprendeu sequer a escrever. São os que pensam que sabem. Os que postam textos totalmente desprovidos de conteúdo que valha a pena ser levado a sério, que ainda ferem de morte a língua portuguesa. Desses abstenho-me de falar. E existe uma turma prostituída – a grande maioria – vendendo seus textos para quem paga mais. Quase todos vivendo dentro das redações de jornais e blogs!

Perdemos recentemente quatro escritores. Um deles, nosso maior romancista, João Ubaldo Ribeiro; Ariano Suassuna, um louco genial, de tão autêntico; o tradutor Ivan Junqueira: e um lutador como Rubem Alves. O Brasil ficou mais pobre. Muito mais pobre. João Ubaldo Ribeiro não tinha  rivais.

A mediocridade avança a passos largos. Temos poucas referências agora. Ferreira Gullar, nosso poeta maior, já passou dos oitenta anos faz bastante tempo. Confesso que, no momento, não me ocorre o nome de nenhum escritor brasileiro que reputo como notável ou fora de série. É possível que exista. Mas até onde vai meu conhecimento, não é possível avistá-lo. O terreno ficou fértil para que a burrice prospere ainda mais. Gente sem nenhuma leitura – condição básica para escrever – continua posando de escritor. Uma desgraça, até mesmo porque estamos cercados de analfabetos funcionais.

Espero que a leitura não morra, que não seja o fim de uma era. Que o ato de passar os dias alisando um Smartphone não seja o nosso futuro, e que a forma de comunicação entre as pessoas volte a ser pessoal e calorosa – mais humana. E que tudo isso seja apenas uma fase de transição para algo maior. Espero que a tecnologia não nos engula. Porque estamos todos assustados com nossa dependência dessas maquininhas maravilhosas e viciantes. Muitos acham que elas podem fazer tudo por nós. Inclusive escrever! E para escrever de verdade, criar, é preciso ser múltiplo e autêntico como quer Elias Canetti!