Saudades de John Lennon

Quem sabe eu não deveria estar escrevendo sobre as canalhices do mafioso Carlinhos Cachoeira, sobre o ex-vestal Demóstenes Torres, da festa nababesca de 2,5 mil convidados do condenado a trinta e cinco anos de prisão – mas continua solto – Luiz Estevão, da guerra entre os pastores evangélicos e a comunidade gay, do futuro da Venezuela, da bomba nuclear iraniana, do Wikileaks e Bradley Manning, da luta dos estados brasileiros pelos royalties do petróleo, da guerra civil na Síria, da seca no Nordeste e de tantos outros problemas que afligem a humanidade nesse momento! Lembrando que falei do papa no artigo anterior. No entanto, eu resolvo falar de John Lennon! Por quê?

Tudo se deve a um CD presenteado por um amigo, com uma coletânea aleatória dos Beatles – ele não sabe diferenciar as músicas dos Beatles do trabalho solo de John e Paul – contendo oitenta canções. No meio delas, estavam misturados  o álbum Band on The Run, de Paul McCartney e o Imagine, de John Lennon. Na primeira audição – já que conheço as músicas do Beatles, uma a uma (como quase todo mundo) – fiquei chateado com a mistura, já que preferia ouvir somente o período Beatles.

A experiência me trouxe um saudosismo enorme daquele período utópico, que se contrapunha a um momento tão difícil – URSS X EUA, ditadura militar no Brasil, Guerra do Vietnan, bombas atômicas etc. Mas serviu, principalmente, para mostrar a genialidade do sonhador Lennon frente a todos os outros componentes da banda, o que não é novidade, bem como sobre qualquer outro criador, cantor, compositor que pertença ou tenha pertencido ao universo do pop/rock.

Nascido em plena Segunda Guerra Mundial, em meio às bombas que sacudiam Liverpool, e sua Inglaterra natal, em setembro de 1940, ele veria ainda mais cinco anos de horror dominar seu país – não foi por acaso que ele odiou a guerra toda a vida.  O efeito das bombas voltou a assombrá-lo duramente a Guerra do Vietnam e ele protestou diariamente, encarnando a luta contra essa guerra que mobilizou a opinião pública mundial, principalmente os jovens.

É nessa época que nasce um novo John Lennon. Passado o período de juventude, ocorre uma transformação gigantesca no homem e no criador. É abissal a diferença entre o Lennon Beatle, para o Lennon que surge após 1970. Não obstante ele ter formado com Paul McCartney a dupla de maior sucesso da história do Pop entre 1963 e 1970, compondo – como se tivessem apenas se divertindo – duas centenas de canções e lançando dois discos por ano, um número assustador. Se os Beatles são excelentes, John o é ainda mais. Paul, como músico e letrista, aclamado por multidões e reconhecidamente um gênio, é engolido por John. Foi isso que vi, de forma crua, quando ouvi por diversas vezes o disco Imagine e outra canções pós Beatles de Lennon.

As letras, os arranjos musicais, a voz, a concepção, a leveza, naturalidade que encontramos em suas canções, deixa registrada a marca do gênio que criava obras-primas com facilidade e em grande profusão.

Sei do perigo que as utopias trouxeram para a humanidade e das dores que elas nos causaram no século XX e em outros momentos da história. O maior representante dessas utopias na segunda metade do século é o britânico Lennon com seus protestos, e com os versos de sua canção Imagine, falando direta e apaixonadamente àqueles que carregam a rebeldia em suas mentes: os jovens – pedindo um mundo “sem governo, sem religião, sem guerras, e com todos vivendo em paz”. Sabemos o quanto algumas dessas assertivas são perigosas para os homens, que, governados são terríveis, e “desgovernados” o são ainda mais.

Não vencemos nenhum dos obstáculos apontados por Lennon, ainda vivemos assustados por fantasmas que não abandonam a humanidade. Quando citei no primeiro parágrafo desse texto, o nome de várias desgraças que nos assediam enquanto escrevo, quis trazer o sonho de Lennon de volta. Pois nada é melhor para sonhar do que as canções do Garoto de Liverpool: Imagine, Give Peace or Chance (Dê uma Chance a Paz) ou Merry Christmas, Stand By Me. Sonhar com as doces melodias de John é necessário! Ele que foi o maior cancioneiro desse mundo louco, que Shakespeare, em certo momento, disse que era “Uma história contada por um idiota…”. Acho que não posso dizer que as utopias são necessárias, mas elas funcionavam como um consolo. Não as temos mais, e “Esses pobres tempos corruptos precisam de amparo”, como disse Falstaff.

Saudades de John Lennon!