Bob Dylan e o Nobel

Deprimido e desolado – entre outras coisas, pela morte de seu irmão Emil, quando fazia experiência com explosivos – o químico e empresário sueco Alfred Nobel, o inventor da dinamite, resolveu criar uma Fundação que ajudasse no bem-estar da humanidade. Ele inspirara-se nas conversas com sua grande amiga, baronesa Von Suttner, uma pacifista que tinha grande influência sobre ele. Vivia-se a Belle Époque, a era de ouro da Europa, o período que vai de 1871 a 1914, ou seja, o fim da guerra franco-prussiana até o início da Primeira Guerra Mundial. Morto em 1896, aos 63 anos, Nobel não viveu para ver sua obra em ação. A criação da Fundação Nobel, em 1895, que premiaria àqueles que contribuíssem para o progresso da humanidade nas áreas de Quimica, Física, Medicina, Paz e Literatura só se deu a partir de 1901. O prêmio logo se tornou o mais prestigiado do mundo. Satisfeito, em 1968, o governo sueco resolveu criar um Nobel para área de Economia, muito embora o valor não seja pago pela Fundação Nobel, e sim pelo Banco Central da Suécia.

Durante esses 116 anos, o Prêmio transformou seus ganhadores em celebridades e um sinônimo de distinção – e é justo que seja assim. O mundo os chama de “Nobelists”, e alguém que ganhou o prêmio ­– o número de ganhadores não chega a mil pessoas – adquire a mais alta respeitabilidade. No entanto, o prêmio sempre foi motivo de polêmicas, principalmente em relação aos prêmios de Paz e Literatura. O Nobel da paz já contemplou pessoas tão complexas como Menachem Begin, Yasser Arafat e Henry Kissinger. Homens que em alguns momentos usaram a violência para atingir seus objetivos. O prêmio de literatura foi dado a figuras apagadas como Ivan Bunin e Gabriela Mistral, enquanto gigantes incontestáveis como Tolstoi, Marcel Proust, James Joyce, Virgínia Woolf, Jorge Luís Borges e Vladimir Nabokov não o receberam, mesmo após protestos de todos os lados. Ou seja, o Nobel errou feio!

Pois não é que agora a Fundação Nobel resolveu nos presentear com a maior de todas as surpresas: deu o Nobel de literatura ao compositor e cantor de baladas Robert Zimmerman, o Bob Dylan (o Dylan é uma homenagem ao poeta Dylan Thomas). Não tenho muito para falar sobre Bob Dylan, conhecido por suas esquisitices, belos versos, pela voz nasalada, tocando viola e uma gaita na boca. Alguns atribuem sua vitória ao “lobby judaico”, uma teoria da conspiração, algo que sequer sei se existe. O que posso dizer é que se trata de uma evasão da Academia sueca. Mais uma injustiça cometida, sendo essa a maior de todas. Temos escritores excelentes que poderiam receber o prêmio, sendo Philip Roth e Ian McEwan os mais destacados.

Garanto que Bob Dylan não tem o talento de John Lennon, e nem mesmo de Paul McCartney. Pena que um psicopata tenha matado Lennon em idade tão precoce. Lennon era múltiplo, atingia a todos, assim como Paul. Algo que Bob Dylan não consegue. Temos outro gigante do Pop, Roger Waters, ex-líder do Pink Floyd, para mim o maior letrista vivo do Rock. Mesmo assim, jamais daria um Prêmio Nobel de Literatura a qualquer um deles. Simplesmente, porque eles são músicos. A revista Veja disse que “Bob Dylan dá uma revigorante sacudida no Nobel”. Como assim, sacudida? Um crítico musical de um dos “jornalões” chamou Dylan de “o Shakespeare da música”.  Só rindo. Comparar Shakespeare a Bob Dylan é como comparar Jesus Cristo com uma espiga de milho. Pergunto, por que a Academia sueca ainda não criou um Prêmio Nobel de Música? Ela não criou um prêmio Nobel de Economia! A sublime e gratuita arte da música merece um só pra si. Ninguém nesse mundo louco, homem ou mulher, é mais aplaudido, amado, incensado e endeusado do que aqueles que cantam e compõem. Essas pessoas são deuses. Sei que já existem prêmios demais para música e cinema (outra arte que poderia ter um prêmio Nobel). Agora, dar um prêmio de literatura para um cantor pop?! Ah! Outra coisa, e estou adorando! A Academia sueca já fez várias tentativas de falar com Dylan, mas não consegue! Bem feito! Espero que ele desdenhe o prêmio!

Para mim, esse foi o momento mais baixo da Academia sueca. O tempo dirá. Em relação ao lamentável fato, não posso deixar de citar a tão famosa fala de Horácio e Hamlet ao ver o fantasma do Rei Hamlet – e a cena se passa exatamente na Escandinávia, terra do Nobel: “Mas é tudo tão estranho, meu lorde! No entanto, como um estranho acolhe-o! Existem mais coisas entre o céu e a terra do que imagina tua vã filosofia, meu caro Horácio”. É isso, é deveras estranho! E eu não acolho!

Saudades de John Lennon

Quem sabe eu não deveria estar escrevendo sobre as canalhices do mafioso Carlinhos Cachoeira, sobre o ex-vestal Demóstenes Torres, da festa nababesca de 2,5 mil convidados do condenado a trinta e cinco anos de prisão – mas continua solto – Luiz Estevão, da guerra entre os pastores evangélicos e a comunidade gay, do futuro da Venezuela, da bomba nuclear iraniana, do Wikileaks e Bradley Manning, da luta dos estados brasileiros pelos royalties do petróleo, da guerra civil na Síria, da seca no Nordeste e de tantos outros problemas que afligem a humanidade nesse momento! Lembrando que falei do papa no artigo anterior. No entanto, eu resolvo falar de John Lennon! Por quê?

Tudo se deve a um CD presenteado por um amigo, com uma coletânea aleatória dos Beatles – ele não sabe diferenciar as músicas dos Beatles do trabalho solo de John e Paul – contendo oitenta canções. No meio delas, estavam misturados  o álbum Band on The Run, de Paul McCartney e o Imagine, de John Lennon. Na primeira audição – já que conheço as músicas do Beatles, uma a uma (como quase todo mundo) – fiquei chateado com a mistura, já que preferia ouvir somente o período Beatles.

A experiência me trouxe um saudosismo enorme daquele período utópico, que se contrapunha a um momento tão difícil – URSS X EUA, ditadura militar no Brasil, Guerra do Vietnan, bombas atômicas etc. Mas serviu, principalmente, para mostrar a genialidade do sonhador Lennon frente a todos os outros componentes da banda, o que não é novidade, bem como sobre qualquer outro criador, cantor, compositor que pertença ou tenha pertencido ao universo do pop/rock.

Nascido em plena Segunda Guerra Mundial, em meio às bombas que sacudiam Liverpool, e sua Inglaterra natal, em setembro de 1940, ele veria ainda mais cinco anos de horror dominar seu país – não foi por acaso que ele odiou a guerra toda a vida.  O efeito das bombas voltou a assombrá-lo duramente a Guerra do Vietnam e ele protestou diariamente, encarnando a luta contra essa guerra que mobilizou a opinião pública mundial, principalmente os jovens.

É nessa época que nasce um novo John Lennon. Passado o período de juventude, ocorre uma transformação gigantesca no homem e no criador. É abissal a diferença entre o Lennon Beatle, para o Lennon que surge após 1970. Não obstante ele ter formado com Paul McCartney a dupla de maior sucesso da história do Pop entre 1963 e 1970, compondo – como se tivessem apenas se divertindo – duas centenas de canções e lançando dois discos por ano, um número assustador. Se os Beatles são excelentes, John o é ainda mais. Paul, como músico e letrista, aclamado por multidões e reconhecidamente um gênio, é engolido por John. Foi isso que vi, de forma crua, quando ouvi por diversas vezes o disco Imagine e outra canções pós Beatles de Lennon.

As letras, os arranjos musicais, a voz, a concepção, a leveza, naturalidade que encontramos em suas canções, deixa registrada a marca do gênio que criava obras-primas com facilidade e em grande profusão.

Sei do perigo que as utopias trouxeram para a humanidade e das dores que elas nos causaram no século XX e em outros momentos da história. O maior representante dessas utopias na segunda metade do século é o britânico Lennon com seus protestos, e com os versos de sua canção Imagine, falando direta e apaixonadamente àqueles que carregam a rebeldia em suas mentes: os jovens – pedindo um mundo “sem governo, sem religião, sem guerras, e com todos vivendo em paz”. Sabemos o quanto algumas dessas assertivas são perigosas para os homens, que, governados são terríveis, e “desgovernados” o são ainda mais.

Não vencemos nenhum dos obstáculos apontados por Lennon, ainda vivemos assustados por fantasmas que não abandonam a humanidade. Quando citei no primeiro parágrafo desse texto, o nome de várias desgraças que nos assediam enquanto escrevo, quis trazer o sonho de Lennon de volta. Pois nada é melhor para sonhar do que as canções do Garoto de Liverpool: Imagine, Give Peace or Chance (Dê uma Chance a Paz) ou Merry Christmas, Stand By Me. Sonhar com as doces melodias de John é necessário! Ele que foi o maior cancioneiro desse mundo louco, que Shakespeare, em certo momento, disse que era “Uma história contada por um idiota…”. Acho que não posso dizer que as utopias são necessárias, mas elas funcionavam como um consolo. Não as temos mais, e “Esses pobres tempos corruptos precisam de amparo”, como disse Falstaff.

Saudades de John Lennon!