O Príncipe, O Pequeno Príncipe e os Pokémons

Shakespeare sempre me surpreende. Cansado dos caçadores de Pokémon e da nova geração de corcundas autômatos – que caminham teclando e comem com o smartfone dentro do prato (celular é uma palavra pequena demais para esse aparelho) –, resolvi escrever sobre essa nova onda que celebra a burrice. Sei que esses novos hábitos são frutos da ignorância, da falta de leitura – muito embora achem que estão lendo alguma coisa na tela do aparelhinho -, da incapacidade de ouvir, da estupidez cosmética que agride o corpo, do vazio espiritual que tem feito as pessoas se agredirem com ações que as desumanizam. E hoje, qualquer pessoa adulta é capaz de concordar que estamos vivendo tempos muito pobres, violentos, confusos. Tanto que esses coitados estão procurando na tecnologia, no mundo virtual o que não estão tendo no mundo real. Por isso, estão se enchendo de anabolizantes e profanando o corpo com agressivos adereços e pinturas, se recusando a aceitar seus corpos como a natureza os criou e caçando o que não existe para preencher esse vazio. Vivemos um período de negação corporal e espiritual.  De onde vem isso, ou o que advém disso?

Digo que Shakespeare me surpreende, porque foi relendo sua peça Trabalho de Amor Perdidos, uma das suas primeiras comédias, que me deparei com um diálogo maravilhoso entre um mestre-escola, um amigo deste e um dos muitos tolos engraçados que encontramos em todas as suas peças – semelhantes aos muitos idiotas (os jogadores de pokémon) que nos deparamos todos os dias em nossas vidas e que somos obrigados, pelas circunstâncias, a aturá-los. Na verdade, falo daqueles indivíduos que leram três livros e acham que, por causa disso podem opinar sobre alguma coisa, que não seja algo parecido com caçar Pokémons. Não que pessoas não letradas com muita experiência de vida e sabedoria não tenham o que nos dizer. Pelo contrário, existem e têm muito a nos dizer.

O trecho que estou falando é altamente educativo, e ajuda a jogar uma luz sobre essa nova “geração de jumentos” que estamos formando – a geração Pokémon. Que crianças cacem pokémons, não vejo nenhum problema. Agora, adultos?

Mas, vamos ao trecho. A conversa gira em torno de uma caçada em que o professor Holofernes fala de um rapaz que abateu um cervo. Holofernes usa uma expressão latina durante a narrativa (haud credo), e Dull (Tapado) confunde tudo, o corrige dizendo que não era isso, mas apenas um veadinho! Ao que o mestre-escola assustado, diz: “Oh! Monstro da ignorância como és hediondo”! E sir Nataniel esclarece o ocorrido dizendo o seguinte: “Senhor, esse rapaz nunca se alimentou com as guloseimas encontradas nos livros. Ele nunca comeu papel nem bebeu tinta. Seu intelecto não está abastecido”. E diz que Dull é como “uma dessas plantas estéreis”, “não passa de um animal”. E outros adjetivos semelhantes. Lembro que estamos falando de uma comédia, de uma cena para fazer rir.

Vejam que sentença: “Nunca comeu papel, nem bebeu tinta”. É isso, estamos cercados por essa galera. Não estou falando dos que não tiveram oportunidade de estudar, mas daqueles que estudaram, mas não leram. Fizeram apenas o que era necessário para tirar um diploma. Ostentar o título de doutor não quer dizer que essa pessoa “abasteceu o intelecto”. E curso superior sem leitura transforma essa pessoa apenas em um profissional especializado, nada mais que isso! Um mero analfabeto funcional. Assim, digo que estamos cercados por gente que não leu nem o singelo Pequeno Príncipe, de Saint Exupéry, nem o erudito O Príncipe, de Nicolo Machiavelli. Ou seja, nem Príncipe nem Pequeno Príncipe.

Essas pessoas ocas estão em todos os lugares.  “Abastecer o intelecto”, como diz Shakespeare, é ler, educar-se, entrar em contato com a arte, dialogar, conversar, interagir com as pessoas e o mundo que o cerca, e não procurar o que não existe, por conta da robotização provocada pela tecnologia. Ninguém é obrigado a ler O Príncipe ou qualquer outra obra literária. No entanto, é preciso que os caçadores de Pokémon saibam que eles são meras “plantas estéreis”, que nada têm a oferecer, que apenas vivem uma existência animal, sem nada que os transforme em seres necessários e dignos de ser ouvidos. Portanto, digo-lhes que continuem caçando Pokémons e esqueçam o Príncipe e o Pequeno príncipe. E que fiquem intranquilos! No final, suas vidas terão sido em vão.

É isso!