Um Mundo Confuso

Agora que passou um pouco a espetaculização do drama vivido pelos refugiados da crise no Oriente Médio – o problema ainda continua –, em particular, dos sírios, atrevo-me a escrever sobre o tema tentando evitar que fique contaminado por sensacionalismo e paixão, para que um fato tão grave e doloroso tenha um tratamento adequado. A foto do garoto Aylan, morto afogado em uma praia na Europa, chocou o mundo e tornou-se o símbolo da luta dessas pessoas que fogem da ação mais estúpida já praticada pelo homem: a guerra. Nunca uma cena me lembrou tanto da sentença de Malcolm, em Macbeth – um tirano sanguinário semelhante a Bashar Al-Assad: “Como, todos os meus pequenininhos mortos? O céu viu tudo sem tomar partido deles”?

O mundo é diverso e o ser humano imperfeito. O planeta é extremamente desigual em distribuição de recursos naturais, com muita água e clima favorável em um canto e deserto e causticante em outro; noutros é gelado, com dias curtos e noites longas; alguns são sólidos e abundantes em fauna e flora ou são grupos de ilhas atacadas por furacões e tempestades; alguns são ricos em ouro negro (petróleo) outros contêm apenas pedras. Os homens diferem em cores, etnias, estatura, língua, escrita, pensamento, crenças e fé. E a fé constitui-se naquela que é, provavelmente, o maior dos amálgamas e ao mesmo tempo o maior dos problemas, a religião. Pelo menos é, na questão que estamos tratando aqui.

Durante esses poucos mais de cinco mil anos do nascimento do que chamamos de civilização – contamos a partir do nascimento da escrita – com Egito e China como precursores, a humanidade esteve sempre mergulhada em guerras, barbáries e atrocidades, em períodos variáveis, nos chamados cinco continentes. Astrólogos, filósofos, poetas, artistas, alquimistas, fanáticos, comerciantes, viajantes, empreendedores, navegantes, reis, rainhas, guerreiros, generais, estadistas e bem mais recentemente, e com maior impacto, os cientistas com sua tecnologia, trabalharam incansavelmente para construir e destruir, moldando o mundo que conhecemos hoje.

Em um grau maior estão os grandes místicos, criadores de religiões. Os homens de fé inabalável, portadores da palavra de Deus: Moisés, Zoroastro, Buda, Confúcio, Maomé, Jesus Cristo e outros. Esses homens, que denominamos iluminados, com suas ações tiveram um gigantesco impacto sobre a humanidade. Entramos aqui na esfera da fé, na crença ou não na existência de Deus. Parece ser a presença da fé um dos mais importantes catalizadores da existência humana na terra. Segundo esses místicos, vieram os cismáticos, os reformadores: em particular no Cristianismo, John Wycliffe, Calvino e o maior deles Lutero. Xintoísmo, budismo e hinduísmo (Índia), religiões do extremo oriente – Japão, China, Coreia – têm uma noção vaga de Deus, ou têm o seu teísmo na figura do imperador, caso do Japão. O islamismo, do profeta Maomé, uma religião do século VII, que envolve o povo árabe, que proporcionou grandes momentos de desenvolvimento cultural, artístico e filosófico entre os séculos IX e XV, parece ter parado no tempo e incorpora um sistema de castas principescas e isola o resto de seu povo, condicionando-os a um destino manifesto de fracasso.

Não bastasse tudo isso, o mundo é dividido em dois blocos – sem contar que temos fronteiras –, Ocidente e Oriente. A essas duas denominações seguem outas divisões, como: Oriente Próximo, Oriente Médio e Extremo Oriente, sendo essas subdivisões vistas a partir da Europa, pela sua localização etnia, religião e economia. O ocidente é dividido em União Europeia, América, a prima pobre América Latina e algum pedaço da África e Ásia, tudo isso a partir de uma visão das grandes potências. Temos ainda o colosso da Rússia, que engloba vários conceitos e a superpotência Estados Unidos da América exercendo um poder de força em todo o mundo.

Só muito recentemente o ser humano teve consciência – a partir das duas catastróficas guerras mundiais – de tentar resolver seus conflitos sem se matar. Muito embora a Paz da Westfalia tenha sido a precursora disso, é, com o nascimento da ONU – Organização das Nações Unidas e sua Declaração Universal dos Direitos do Homem – é que o direito a paz é buscado. No final, todas essas categorizações citadas amalgamam o mundo, dividindo-o entre Ricos e Pobres. Eis no que se constitui toda a nossa existência: a luta pela sobrevivência. É isso que está ocorrendo no Oriente Médio e que se alastra pelo mundo. Pessoas fugindo da pobreza e da estupidez humana.

O ser humano é um predador cruel. Os sistemas políticos e econômicos não têm conseguido estancar o sofrimento dos menos favorecidos.  “Olhai à vossa volta”. O jogo das duas potências EUA e Rússia, com a União Europeia no meio, é um enorme catalisador de tudo isso. Apontamos todas as diferenças que nos distinguem para que todos saibam que uma das formas pela qual a humanidade pode avançar e conseguir algum tipo de paz e harmonia duradouras é respeitando as diferenças. É isso que essas pessoas que vagam pelo mundo precisam nesse momento, serem respeitados por serem diferentes dos que os acolhem.

Se a Alemanha tem uma dívida enorme com a humanidade, chegou a hora de pagá-la. E é isso que ela está fazendo. O vilão de ontem pode ser o santo de hoje. Não me interessam os motivos pelos quais ela está acolhendo os refugiados, como querem alguns críticos, que dizem que a Alemanha precisa de “ajudantes de cozinha”. As pessoas querem viver, e isso a Alemanha está lhes proporcionando. Quanto ao Islã, somente um Lutero árabe poderá modernizá-lo, alterando-lhe o caráter tribal, medieval – como foi o cristianismo nessa era chamada de idade média –, que proporciona aberrações como os psicopatas do Estado Islâmico e seu pretenso califado.

Para concluir, não alimento tantas esperanças na humanidade e seus homens cruéis, mas acredito que esses mesmos homens possam construir instituições sólidas que fazem a diferença. Quanto a fé em Deus, não posso negá-la, pois sem fé – e coragem – não se realiza nada. Mas não posso deixar de lembrar o verso de Shakespeare no início desse texto: “Como? O céu viu tudo sem tomar partido deles?!”.